Autor/aCelso Gonzaga Porto

Celso Gonzaga Porto, nasceu em Arroio dos Ratos. Tem formação em Engenharia Operacional de Produção com Pós-graduação em Design Industrial- Especialização em Projeto do Produto e Professor do Ensino Técnico Industrial. Autor de cinco livros solos, com participações em 27 coletâneas. Possui várias premiaçoes na área da Literatura. Academias a que pertence: Academia de Letras de Teófilo Otoni, Academia de Letras do Brasil.Seccional-RS e Academia Luso-Brasileira de Letras do RS. Sócio Efetivo da Sociedade Partenon Literário

Um chafariz de refresco

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Celso Gonzaga Porto

Das reminiscências do meu tempo de infância, surge na lembrança a história de um antigo chafariz. Ele ficava na confluência das avenidas João Pessoa e Azenha, junto a uma estátua de Bento Gonçalves, um dos heróis da Revolução Farroupilha, cujo monumento foi inaugurado em 15 de janeiro de 1936 sendo instalado ali, na Praça Piratini em 1941. Na década de cinquenta, esse chafariz era todo iluminado à noite. Holofotes instalados no contorno interno da sua estrutura, direcionados em ângulo aos bicos que faziam a água jorrar, davam a conotação de que a água saía em jatos coloridos. O cenário é um ambiente característico do bairro Azenha, cidade de Porto Alegre no Rio Grande do Sul. E por ali, circulavam os antigos bondes, transporte elétrico sobre trilhos cuja extinção aconteceu em 08 de março de 1970 dando passagem ao transporte de ônibus, administrados pela Companhia Carris Porto Alegrense, a mesma que administrava desde 1872 o serviço de bondes, sendo que 10 de março de 1908, marca a data do primeiro bonde elétrico a circular pela cidade. Mas voltando às reminiscências, vejo-me andando com meus pais no bonde Teresópolis, cuja linha passava por aquele chafariz. Várias foram as vezes que circulamos por ali à noite. Na minha fantasia infantil, ficou a ideia de que naquele chafariz, jorrava refresco. Comentei isso com meu pai e ele, tentou explicar-me que não era isso que acontecia dizendo passo a passo como ocorria aquele efeito.
Ele não teve muito sucesso no seu trabalho. Na mente de fantasia, formava-se um sentimento de estar sendo enganado. Provavelmente, por não querer descer do bonde para que aquele refresco pudesse ser saboreado. Como eram várias cores, poderia ter ali muitos sabores diferentes; quem sabe limão, laranja, morango ou até algum sabor novo ainda desconhecido.
Os anos se passaram e com ele, a desilusão do meu chafariz de refresco. A maturidade mostrou que meu pai tinha razão. A água mantinha as suas características inatas de ser incolor, inodora e insípida. Todo o efeito não passava de luzes artificiais jogadas sobre os jatos d’água que jorravam de bicos estrategicamente posicionados de maneira artística com propósito de formar uma ilusão de ótica propícia à fantasia de criança. Nunca consegui passar caminhando próximo ao chafariz, mas uma coisa acompanhou-me pelos tempos. A certeza de que, se passasse por perto, certamente tentaria burlar a atenção dos adultos e, com as mãos em concha, apanhar um volume pequeno daquela água que proporcionasse um gole ou um bochecho, para ter a certeza de que aquilo, realmente não era refresco.

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