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Pensa mal e acertarás

P

Pedro Rivera Jaro 

Traduzido ao portugués por Silvia C.S.P. Martinson

  Se algo eu aprendi ao largo de meus 74 anos de vida, há sido desconfiar de políticos e por adição de governantes de qualquer signo político.

Recordo que sendo um menino, me contava um senhor ancião, de cabelos e bigodes brancos, que quando da guerra de independência de Cuba, a intervenção oficial norte americana começou devido à explosão e imediato afundamento do encouraçado Maine pertencente aos Estados Unidos da América do Norte, estando fundeado na baia de Havana em águas de Cuba.

Essa foi à escusa, o detonador, para intervir sem tabus na guerra de Espanha com os independentistas mambis de Cuba. E já de passo se somaram Porto Rico, Filipinas e a ilha de Guam a insurreição e posterior influência norte-americana sobre estes territórios.

Conhecemos, todos, a situação política posterior de todos estes territórios onde os Estados Unidos tiveram predomínio, exceção a Cuba, donde veio o pombo cuca, e na qual, desde os primeiros cinquenta anos, Fidel Castro e seus guerrilheiros em Sierra Maestra se apoderaram da Pérola do Caribe e aí seguem com seu regime comunista.

Os Estados Unidos ocuparam Guantánamo em 1898. Legalizaram essa ocupação no Tratado USA-Cuba de 1903, conseguindo jurisdição, porém conservando Cuba a soberania definitiva.

A realidade era que para a Espanha não lhe interessava provocar ao gigante norte americano, porém pode ser organizado pelos independentistas cubanos, com o objetivo de agitar a opinião pública americana e promover a intervenção norte americana em conflito
O proprietário do diário The World e de outros muitos periódicos, William Randolf Hearst que havia visitado Mine quatro dias antes de seu afundamento.

Depois da explosão se comprovou que não haviam peixes mortos ao redor, ou seja, que não havia indícios de explosão exterior. A explosão foi interior e produzida por um acidente ocorrido pela combustão espontânea de carvão, que se transmitiu â pólvora negra que formava parte da carga e também à munição , provocando a explosão e o imediato afundamento do encouraçado.

Em 1975, uma equipe de expertos dirigida pelo Almirante Hyman Rickover, criador da Marinha de Guerra Nuclear, concluiu que a explosão foi interna e que os oficiais do barco não obraram com as devidas cautelas. Houve outros investigadores que chegaram a igual conclusão.

Dito isto e referindo-nos ao conflito gerado pelo ataque de Hamás, como pode ser que entre um contingente armado em território israelita, que está fortemente militarizado e com preparação de reação a ataques terroristas, atuem livremente sobre uma multidão de milhares de jovens assistentes a um grande espetáculo musical? Não havia nenhuma vigilância que pudesse reagir?

Assassinar a 1.200 pessoas e centenas de feridos e sequestrados, sem encontrar resistência no mesmo país que faz poucos dias há reagido ao lançamento de 300 misseis e drones, conseguindo sua destruição quase a 100 por cento. É possível crer sem ter um mínimo de desconfiança?

Ao menos deveríamos de pensar, os que tenham um grama de cérebro.
A imprensa e demais meios são convenientemente silenciados pelo poder político e habilmente dirigidos até onde convém aos que mandam.

Sempre há sido assim, segue sendo e seguirá pelos séculos dos séculos, enquanto o homem seja homem.

A quem convém tudo o que está passando no Oriente Médio?

Miragem

M

Silvia C.S.P. Martinson

Em uma noite quente, de calor escaldante, ele sonhou, sonhou acordado.
 
Viu uma paisagem longínqua, de muito verde e de flores coloridas.
 
Criou coragem e pelos bosques caminhou, lentamente, sem pressa.
 
Movia-lhe uma curiosidade forte que não sabia de onde vinha e nem porque a sentia.
 
A lua derramava seus raios sobre tudo e as sombras na penumbra se moviam.
 
Pensou... Seriam elas reais ou fruto de imaginação sua.
 
Porém com o seu andar pelas cercanias, descobriu que as sombras eram verdadeiras.
Tinham forma, tinham cor, oscilavam, caminhavam.
 
Eram seres vivos que na noite se entretinham.
 
As árvores tinham vida a às flores cumprimentavam ais quando estas então lhes sorriam.
 
O chão por onde pisava ao seu contato exclamava:
- Pisa mais leve, por favor! Se possível voa, para não me causares mais dor!
O pasto sorridente lhe disse:
- Eis-me aqui felizmente! Sirvo para alimentar muita gente.
Ele surpreso então perguntou: a quem das de comer?
- a quem alimentas tu?
Este, ingenuamente respondeu:
- Alimento as formigas, as lagartas, desde a noite dos séculos, para que elas há seu tempo, como borboletas enfeitem os dias com suas cores luzentes.
 
E as sombras se moviam dando passagem ao intruso que no bosque adentrava cada vez mais espantado.
 
Os pássaros cantavam saudando a lua que cada vez mais a tudo clareava.
 
Até que como luz etérea ela, surgiu do nada.
 
Deslumbrou-o com seu olhar, como se a muito lhe conhecesse.
 
Ele pasmado, assombrado pelas lembranças, neste momento recordou-se.
 
Em passado distante a conhecera.
 
Era a mensageira protetora e amiga, sua fada madrinha, sua eterna companheira. A inspiração de seus dias.
 
Estendeu-lhe esta, as mãos e o convidou a segui-la.
 
O sonho virou realidade, para ele, e definitivamente, depois de tanto tempo, de muita dor e sofrimento, na noite eles seguiram, pelo resto de suas vidas.
 
E neste momento em que os dois finalmente consumam seu amor, com beijos e carícias por tanto tempo guardadas, ouve-se um som de trombetas, são os anjos que se acercam e dizem amém.
 
Ele então embevecido, ainda, ouve um som mais forte e estremece, é uma campainha a tocar.
 
Retorna de seu sonho e cambaleando vai à porta atender, não era ninguém.
 
Dá-se conta que sim, era o telefone que não parava de tocar.
 
Atendeu-o.
 
Era sua ex-mulher que por estar, ele, com a pensão atrasada, os filhos com fome, a escola sem pagar, passa então a vituperar maldizendo-o, por incompetente e estar sempre acordado a sonhar.
 
O idílio tão lindo, agora se desvanece, as ilusões somem da memória e se perdem para sempre, nesta vida, pelo ar.

A guerra da Melilla em 1909

A

Pedro Rivera Jaro

Traduzido para portugués  por Silvia C.S.P. Martinson

 
Uma das guerras da Espanha no Marrocos ocorreu em 1909. Para essa guerra, como para todas as guerras, o povo contribuiu com seu sangue mais jovem e também com seus oficiais militares mais corajosos, como o Capitão Melgar.
 
Os políticos causam guerras e os filhos do povo, que não têm dinheiro para pagar a Bula de Salvação e evitar o recrutamento, derramam seu sangue em defesa dos interesses de algumas pessoas poderosas que nem sequer conhecem. Tudo isso em nome da "pátria".
 
Bem, meu avô paterno, Apolônio, que na época tinha 21 anos, era um desses jovens.
Quando eu tinha uns 12 anos, meu avô devia ter uns 74 anos, e devido a uma insuficiência de seu suprimento de sangue, durante as noites ele sofreu episódios que o fizeram chamar sua mãe durante o sono, gritando e acordando minha tia Lucia e minhas primas Isabel e Rosita. Para compartilhar este pequeno aborrecimento, porque o resto do tempo meu avô era uma pessoa muito carinhosa com sua família e muito apreciada pelos vizinhos e amigos, os cinco filhos, ou seja, meus tios e meu pai decidiram acompanhá-lo todas as noites por sua vez, para que o resto da família pudesse descansar.
 
O problema surgiu porque meu pai e meu tio Victor eram ambos condutores de caminhão e às vezes dormiam enquanto dirigiam podiam interromper a concentração necessária para dirigir um caminhão, como aconteceu em uma ocasião com meu tio Victor, que saiu da estrada e felizmente não tivemos que sofrer nenhuma conseqüência séria. Para evitar isso, nós netos, quando era estritamente necessário que nosso pai ou tio dormisse, acompanhávamos nosso avô durante a noite, para cuidar dele com todo o carinho que nossos mais velhos merecem.
 
Meu avô não costumava falar muito, mas de vez em quando ele dizia algo, sempre com muito carinho e um sorriso no rosto. Ele chamou carinhosamente meu pai de "el Negro" (o preto), porque seu cabelo e sua pele eram escuros e bronzeados pelo sol. Ele costumava dizer que sempre foi diferente de seus irmãos. Outra memória que tenho, talvez uma das mais antigas da minha vida consciente, foi num dia ensolarado e bonito, quando meu pai e meus tios estavam em um campo no que é hoje a Cidade dos Anjos, em Madri, e meu avô estava comigo, enquanto colhiam grão de bico no campo, meu avô me levou sob um grande tanque de água, cujos suportes eram colunas de ferro, e lá ele tirou sua boina preta, que sempre usava na cabeça, e pegou minha mão, tirando de dentro da boina um grilo preto, que ele queria que eu pegasse na mão, mas que me assustava. Seu sorriso estava completo, sua boca e seus olhos estavam iluminados, e falando comigo muito suavemente ele me disse: não tenha medo filho, olhe, não faz nada. Veja como eu o tenho? Meu medo desapareceu e peguei o grilo, e depois de um tempo o soltamos, para que ele pudesse continuar vivendo livre. Ele também me contou, durante uma noite que eu o vigiei e o acordei, sobre quando ele estava lutando na Guerra de Melilla, onde quase morreu da peste e da luta com os Kabileños.
 
Ele era um embalador, ou seja, era responsável pelo cuidado e manuseio das embalagens e mulas, que eram o meio de transporte fundamental naquele terreno acidentado, para as armas pesadas, munições e outros suprimentos em geral necessários naquela situação. Todos os dias ele tinha que levar as mulas para beber água em uma nascente, a qual tinha que ser acessada descendo por um barranco, no fundo do qual se encontrava o regador. Do alto das colinas que bordejavam o barranco, os Kabileños escondidos disparavam seus rifles contra os soldados espanhóis abaixo, causando muitas baixas.
 
Meu avô costumava me dizer que ele se aconchegava a uma das mulas, cobrindo-se atrás da cabeça, pescoço e pernas do animal, servindo assim como um parapeito. Essa ravina se chamava del Lobo.
 
Naquele momento eu entendi a canção que eu ouvia as meninas cantarem quando eu era mais jovem, enquanto elas saltavam na corda: "En el Barranco del Lobo/// hay una fuente que mana/// sangre de los españoles// que murieron por España.// Pobrecita niña // ¿cuánto llorará? // al ver su novio// // que a la guerra va. //Ni me peino ni me lavo//ni me pongo la mantilla//hasta que vuelva mi novio//de la guerra de Melilla//Pobrecita niña//? Cuánto sufrirá//pensando en su novio//que en la guerra está//

Outra coisa que ele me disse como foi resgatado de entre os mortos e os desalojados pela peste por um compatriota, colega e amigo dele, cujo nome não lembro, embora seu sobrenome fosse Ramos, quando os enfermeiros o levaram para um quartel onde jogavam os mortos vítimas da terrível peste que irrompeu entre os membros do exército espanhol na África.
 
Quando seu amigo Ramos pôde ir vê-lo no alojamento e descobrir que havia sido levado ao necrotério, ele disse que isso não poderia ser, pois que pela manhã ele o havia visto se recuperar, lenta mas seguramente. Não satisfeito com a situação, ele foi até o necrotério e verificou que a porta do necrotério estava trancada, mas encontrou uma janela que não estava devidamente fechada, e através dela entrou. Ele procurou meu avô lá até encontrá-lo, e verificou se ainda estava vivo. Ele o carregou de costas e o arrastou até a janela, levando-o para fora e carregando-o para o alojamento com a ajuda de outro colega que o esperava do lado de fora do necrotério.
 
Esse tremendo gesto de solidariedade, amizade e companheirismo, sempre teve em mente e sem ele, provavelmente eu não existiria e não estaria contando esta história para vocês. Meu avô Apolônio foi curado e viveu até os 80 anos de idade. Aquele amigo que literalmente o trouxe de volta dos mortos costumava visitar a casa de meu avô em Madri e eu costumava vê-lo quando era um garotinho, mas não sabia então o que lhe estou dizendo, que foi a origem e o fundamento de sua grande amizade que durou até sua morte.

Recordações

R

Silvia C.S.P. Martinson

Ele caminhava na tarde que se fazia muito fria.
 
As recordações lhe vinham às vezes aos poucos, outras aos borbotões impregnando sua mente com fatos e imagens do que se passara a muito tempo e não sabia bem porque acontecia isso naquele instante.
 
Lembrou os tempos de Ginásio, quando na aula de francês escreveu uma poesia e o professor duvidou que fora ele que a escrevera, todavia até provar o contrário lhe deu 10, nota máxima à época.
 
Já em Latim era muito bom, gostava da matéria e o professor era ótimo. Recordou então que talvez estivesse predestinado a ser padre ou então advogado. Optou por esta segunda hipótese.
 
Fez seu exame vestibular à Universidade e o idioma que escolheu como prova a ser submetido foi o francês. Foi bem sucedido, traduziu um texto do escritor francês Vitor Hugo.
 
Naquele tempo as escolas, mesmo as públicas eram muito boas e o ensino qualificado.
 
A educação era bastante completa, ali se estudavam as matemáticas em suas diversas formas, idiomas como o Francês, o Inglês e o Latim eram obrigatórios até ao final do curso, desenho artístico e geométrico também o eram assim como, História Geral e Nacional e Geografia do mesmo modo. Música em teoria e canto orfeônico faziam parte do curriculum escolar tanto quanto as classes de ginástica.
 
No Dia da Pátria as escolas conduziam os alunos para as grandes avenidas da cidade onde eram realizados os desfiles acompanhados pelas bandas de música da escola, evidentemente com os alunos devidamente uniformizados.
 
Cada escola queria ter uma banda de música mais completa e melhor que a outra.
Havia de certa forma uma competição neste sentido.
 
De repente estas lembranças se evaporaram de seu pensamento e deram lugar às dos tempos da Universidade, quando as ilusões se apagaram e deram lugar a dura realidade que era estudar à noite e trabalhar de dia. A Faculdade de Direito simplesmente lhe apaixonou.
 
Ali desenvolveu suas reais aptidões. Foi um aluno, assim pensava e acreditava, quase brilhante, tanto que para sua formatura foi convidado a fazer o juramento de sua turma. Juramento este composto de vários itens que poderia sintetizar dizendo que se destinava a exercer a profissão com denodo, ética e respeito aos ditames das leis.
 
Durante o período universitário teve vários professores com capacidade e desenvoltura em suas matérias, assim como, também os teve com graves defeitos tanto de cultura como falta real de conhecimento jurídico do que estavam tentando transmitir, o que causou embaraço e desinteresse por parte de alunos, que na verdade eram todos adultos vindos das mias diversas profissões e que por seu trabalho necessitavam estudar à noite.
 
Voltaram, naquele momento, também à sua memória os colegas que ali conhecera.
 
Recordou de um político que fora Secretario em outro município e que chegava às aulas com todo seu séquito de assessores, sendo que alguns deles mais velhos e mais sábios que ele.
Este homem era conhecido por sua petulância e soberba e também por maus tratos à sua mulher e subalternos.
 
Ele teve inúmera faltas às classes o que lhe ocasionou ser reprovado aquele ano. Tentou corromper os ditames da faculdade usando de seu poder político, o que não foi aceito naturalmente por ser uma Universidade ciosa de seu histórico, onde inclusive para passar de ano as notas mínimas eram mais altas que nas demais Faculdades.
 
O mínimo que o aluno tinha que tirar para passar de ano era 7 na média de cada matéria.
Os assessores idôneos deste homem o abandonaram depois e continuaram a estudar nesta Universidade. Ele inconformado procurou outra que lhe favorecesse os interesses.
 
Em caminhando ele ainda recordou das colegas mulheres que à época a estudar Direito não eram tantas e lutavam bravamente contra os preconceitos e também assédio dos colegas homens quando então, alguns, se pensavam muito machos e irresistíveis.
 
Lembrou-se da colega Vania, uma linda morena, que foi assediada por um colega mal educado e ao qual deu uma resposta inesquecível enquanto caminhava acompanhada por outra moça, na hora do descanso entre classes.
Assim disse o galã a ela:
- Esta noite querida vou dormir contigo!
Ao que ela respondeu imediatamente:
- Realmente assim se vai passar, porque, se fosses homem verdadeiramente, comigo ficarias acordado!
 
Ela começou a rir-se e com ela todos os demais colegas homens que ali se encontravam.
 
Pessoas inteligentes e perspicazes e possuidoras de uma rapidez mental com tendência à ironia sempre se sobressaem entre seus pares.
 
O galã era e continuou sendo um ser insignificante, sem maior expressão, tanto nos estudos quanto depois na vida profissional.
Já Vania foi com sua inteligência e perspicácia uma advogada brilhante e bem sucedida.
 
As lembranças foram aos poucos sendo substituídas naquele homem pela atenção que merecia sua caminhada naquela tarde fria, onde a necessidade de um abrigo seguro se fazia mais do que premente.

As avassalladoras

A

Silvia C.S.P. Martinson

Ela estava na praia por volta das 7,00 horas da manhã.
 
Na areia havia poucas pessoas.
 
O mar estava calmo, verde, águas límpidas, o sol surgia no horizonte clareando o dia, aquecendo as águas, a terra e aos homens de boa vontade e aos de má vontade também.
 
O Sol nasce para todos.
 
Havia motivos para chamar alguns de: homens de boa vontade. Isto se dá porque ao invés, há pessoas que amanhecem de mal consigo mesmas e por consequência com o mundo.
 
Que lástima!
 
Poderiam, estas, se sorrissem seriam mais felizes se não se preocupassem tanto com a vida alheia.
 
Após estas breves considerações sigamos com a nossa narrativa. E assim se passou. Eis como ela a quem conheci na praia me contou:
 
- Pois que assim que cheguei, carregada com a minha cadeira de praia, guarda-sol e uma bolsa contendo todos os objetos necessários para desfrutar de uma manhã preciosa na orla, ou seja: água para beber, toalha de banho, bronzeador, protetor solar, celular com carga completa para manter os devidos contatos com meu tradutor, ali me instalei.
 
Ali me instalei, diga-se de passagem, sem deixar de explicar -face às naturais dificuldades pertinentes à minha pessoa – que foi com algum esforço.
 
E assim sendo, fiquei à espera das amigas que sempre chegam um pouquinho mais tarde.
Foi o que se passou, continuou ela a narrar.
 
- Elas chegaram e se instalaram junto a mim, que lhes havia reservado um espaço um pouco maior. Éramos cinco mulheres.
 
Mais ou menos por volta das 10,30 horas da manhã chegaram outras pessoas, que por certo e por motivos particulares, resolveram vir mais tarde à praia.
 
Como me pareceu são moradoras antigas deste povoado e por serem muito velhas se julgam donas da praia e pensam que os melhores lugares, junto ao mar, devam-lhes serem reservados.
 
Em suas cabeças destituídas de bom senso, pequenez de cultura, urbanidade e vivência humana, devam ser-lhes guardados estes espaços por direito , o que só existe em seus pensamentos distorcidos.
 
¡Que pena!
 
E assim segue narrando:
 
- Então se acercaram a nós, liderados por uma velha, loira oxigenada, magra e mal vestida, que segundo algumas outras pessoas disseram, costuma ter atitudes desta natureza todos os veraneios apesar de residir em Madri, elas começaram em voz alta a dizer, a fim de que ouvíssemos que estávamos ocupando um espaço maior do que nos cabia. O que não era verdade.
 
Por falta de qualidade de comunicação e por serem pessoas que não têm maior capacidade intelectual de diálogo, ao invés de aproveitarem a bela manhã que se nos era brindada pela natureza, passaram todo o tempo a fazer comentários desairosos sobre nós e sobre os demais que ousavam lhes passar sob os olhos maldosos.
 
Para que saibas, nos mantivemos caladas e as ignoramos por completo, sem dirigir-lhes um olhar ou uma palavra sequer. Não valia a pena desgastar-mo-nos por tão pouco. Estávamos felizes.
 
Ela então, assim, encerrou sua narrativa:
- A manhã apesar de tudo nos brindou com muita alegria pelo encontro com os amigos, pelo banho em um mar deslumbrante e um sol de verão abrasador, que nos acariciou sobremaneira com seus raios.
 
Tudo o que se passou nos permitiu que novas ideias nos ocorressem e pudéssemos contar a você, escritor, este fato, a fim de que narre a seus leitores, através de seus escritos, mais uma história.
 
Eu lhe agradeci e parti na esperança de encontrar em meu caminho outras pessoas, outros episódios, quem sabe, para contar.

Espanha en chamas

E

Pedro Rivera Jaro 

Traduzido ao portugués por Silvia C.S.P. Martinson

    É agora o mês de dezembro de 2022. Está chovendo profusamente por toda a Espanha e não ouvimos absolutamente nada na televisão, rádio e imprensa escrita sobre os terríveis incêndios que estão devorando nossas montanhas. É hora de fazer alguns comentários sobre esta questão.
Na Galícia, na província de Lugo, Folgoso do Courel e Pobra do Brollón. Na província de Orense, Carballada de Valdeorras e O Barco de Valdeorras, Candeda, Riodolas. 30.000 hectares de floresta destruídos.

Em Castilla León, provincia de Zamora, Losacio, San Martín de Tábara, Sierra de la Culebra. 52.000 hectares destruídos, e a morte de um brigadista de 62 anos. Província de Salamanca, Candelario, Las Batuecas, Monsagro, Peña de Francia. 9.000 hectares destruídos. Em Segóvia, Navafria. Em Ávila, Cebreros, Herradon de Pinares e Navalperal de Pinares, 4.000 hectares e 2.100 habitantes expulsos. Província de León, Luyego, Teleno. Província de Valladolid, Província de Burgos. Na Extremadura, Monfragüe, 6.000 hectares, Valle del Jerte e Las Hurdes, na província de Cáceres, na Catalunha, província de Barcelona, Pont de Vilomara-Bages, no Parque Natural de Sant LLorenc del Munt i l'Obac. Em Aragão, província de Zaragoza, Ateca, 14.000 hectares.

Em Madri, Guadarrama. Em Castilla La Mancha, provincia de Guadalajara, Valdepeñas de la Sierra. Na província de Albacete, Riopar. Finalmente, na Andaluzia, Serra de Mijas, em Málaga.

O número total de hectares de florestas queimadas neste verão ultrapassa 200.000. Sem contar a morte de várias pessoas, casas queimadas, estábulos, gado, animais selvagens, como linces, lobos, ninhos de águias, vinhedos, olivais, etc.

Culpar a mudança climática é muito fácil, senhores. Os Bombeiros do Ministério de Transição Ecológica, Associações de Bombeiros Florestais, Aviões, Helicópteros, Caminhões Tanque-Bomba e centenas de heróis anônimos que arriscam suas vidas para tentar apagar incêndios o mais rápido possível, não são suficientes, quando na floresta seca há combustível suficiente para queimar como árvores, arbustos silvestres, etc.

Os Engenheiros Florestais só procuram regular a atividade, para justificar seu trabalho, a partir de seus confortáveis escritórios oficiais, ignorando os habitantes das áreas rurais, que por gerações cuidaram e mantiveram os campos limpos, para seu sustento e onde criavam seu gado que comia grama e arbustos e plantavam ali seus pomares, olivais, vinhedos, etc. Eles realizavam a poda correspondente e os restos desta poda eram utilizados como combustível em suas casas, em suas cozinhas, em suas panelas de aquecimento, que eles acendiam com pinhas, vassouras e galhos. Outra parte era usada para fazer carvões de azinheira e de cisco. E o resto era queimado durante a estação chuvosa, em lugares onde não podiam iniciar incêndios. Eles limpavam os acessos e vielas de selvas e mato, e as montanhas se mantinham limpas deste combustível, que agora é proibido de ser removido a menos que um inspetor esteja presente, a pedido dos moradores locais. Imaginem pastores de ovelhas, cabras ou vacas, que conhecem o campo como ninguém, que, todavia acham as questões burocráticas um grande esforço, considerando que muitos deles não tiveram a oportunidade de passar tempo suficiente na escola. Tudo isso foi parte de um modo de vida que foi gradualmente abandonado à medida que o homem do campo se tornou um citadino, e a cada dia restam menos e menos habitantes nas áreas rurais.

Cavalheiros que se dizem ecologistas ensinam àqueles que cresceram na terra, cuidando dela e vivendo dela. Ecologistas dos vasos do terraço da mãe, que não permitem a exploração da floresta, que existe há centenas de anos.

Sob o pretexto de cuidar da vida selvagem, lobos e javalis estão tomando conta das montanhas, destruindo o sustento de nossos ancestrais e transformando a floresta em uma selva impenetrável, onde desde que um raio a atinja, um fósforo, um cigarro aceso, produzirá um desastre de proporções inimagináveis. A realidade é que existe abandono rural, o manejo florestal é praticamente inexistente, os corta-fogos estão em estado de semidestruição, cheios de matos que permitem o caminho do fogo de um lado ao outro.

Minha humilde opinião é que os incêndios se extinguem no inverno, através do trabalho preventivo de limpeza de matos e arbustos, o que significa que quando chega o verão, se um raio atingir e causar um incêndio, ele nunca poderá adquirir as dimensões que está adquirindo agora com as montanhas cheias de matos, combustíveis que impossibilitam a passagem dos bombeiros.

Como é possível que tenhamos milhões de desempregados na Espanha e que não sejam contratados trabalhadores diaristas desempregados para limpar as florestas, limpar os corta fogos e construir novos?

Lembro-me de ser um menino de 11 anos, em 1961, talvez 1962, no belo vilarejo de Las Rozas del Puerto Real, na província de Madri, no sopé da Serra de Gredos, de onde vinha a família de minha mãe (meus avós Pedro e Saturnina), e onde eu e meus irmãos passávamos o verão, aos cuidados de minha querida mãe, costumávamos passar o verão, estávamos um sábado à noite em Verbena de Alberto, assistindo ao cinema, projetado por um homem itinerante sobre um lençol branco em uma parede reta, quando a Guarda Civil apareceu e deu o alarme de incêndio nas proximidades do vilarejo. Todos os homens que estavam lá, com mais de 16 anos de idade, entraram no trailer do trator do filho de tia Fernanda, Pepe, e foram para onde o fogo estava queimando no mato, e com vassouras verdes, machados, vassouras, enxadas e baldes de água, todos eles trabalharam juntos até que o fogo fosse extinto.

Não havia unidades de combate a incêndios, helicópteros, aviões ou caminhões pipa, mas o que havia era uma vontade firme de conservar a floresta e seu bosque.

Alguns anos depois pude observar também durante um inverno, na mesma aldeia de Las Rozas del Puerto Real, que vários grupos de trabalhadores diurnos da aldeia, contratados pelo ICONA, o Instituto para a Conservação da Natureza, que é equivalente ao que hoje é chamado de Meio Ambiente, limparam as encostas, caminhos, as ladeiras das estradas, etc., e lembro que durante os anos em que este trabalho foi feito, não houve um único incêndio na aldeia.

Depois de tudo isso, eles deixaram de contratar equipes e o matagal começou a tomar conta de toda a floresta. Perguntei a um grande amigo meu, um pequeno criador de gado, por que ele não limpou e queimou os arbustos, e ele respondeu que o Meio Ambiente havia proibido isso. Eles não podiam cortar arbustos a menos que tivessem solicitado previamente uma licença e, uma vez concedida, tinham que organizar um dia e uma hora para que um Agente Ambiental estivesse presente, para evitar supostos abusos quando se tratasse de queimar arbustos.

Parece que este agente conhecia a terra do meu amigo melhor do que ele, que tinha crescido e se preocupado com ela a vida toda.

Eles aborrecem as pessoas que vivem por e para a floresta com regras, que fazem pouco sentido. Os que sabem são os ecologistas de vasos no terraço, que transmitem seus falsos conhecimentos à pessoas que nasceram ali e aprenderam o respeito pela flora e fauna de seus pais e avós.rbustos, que permitem a passagem do fogo de um incêndio para o outro.

Ainda ontem eu estava ouvindo dois modestos agricultores e criadores de gado da Extremadura em uma sala de bate-papo, explicando o que está acontecendo com eles.

Um deles estava mostrando, enquanto pastava suas cabras e vacas, os restos de uma poda de oliveira, empilhados em um prado verde, depois que suas cabras tinham comido todas as folhas e partes tenras. De acordo com uma lei criada e publicada por aqueles que ele desdenhosamente chamou de "corbatines", ele assinalava a Guarda Civil e Florestal, a obrigação de denunciar e multar aqueles que queimaram tais restos, como tem sido feito por centenas de anos.

Ele recomendou que os agentes florestais olhassem para o outro lado e deixassem de lado os pequenos agricultores que continuam a resistir no campo, com seus animais e suas pequenas colheitas, porque se não, chegará o dia em que desistirão de produzir batatas, frutas, azeitonas, cabras, bezerros, etc., e então nas cidades comeremos cascalho.

Enquanto isso outro criador e agricultor, mostrou um olival que tinha mantido limpo e cultivado, entre outros olivais já abandonados e superprotegidos com ervas daninhas que neste verão tinham queimado completamente e só restaram os troncos nus. Este último não estava mais disposto a continuar lutando e falou em fazer lenha dos troncos para a fogueira em sua casa.

Sem destacar nenhum partido político, aqueles que governam de seus luxuosos escritórios deveriam aprender a falar com o povo, pois são os membros do povo que conhecem seu modo de vida, com a sabedoria transmitida de geração em geração e, finalmente, com suas contribuições, taxas e impostos, contribuem em grande parte para o pagamento de seus salários como funcionários públicos.

A velha faca

A

Silvia C.S.P. Martinson

Era uma vila pequena encravada nas montanhas da Espanha. Chamavam-na Pueblo.
 
Suficientemente grande para seus moradores que se contavam por mais ou menos 650. Pequena para ser considerada como uma cidade, todavia mantinha seu espírito de isolamento e privacidade tão apreciado por seus habitantes.
 
No entanto, tinha lá os seus encantos e conforto e os habitantes consideravam-se felizes por morar ali.
 
Raramente vinha algum “forasteiro” que é como eles chamavam os visitantes que porventura viessem para conhecer a vila.
 
Havia nela um castelo muito antigo feito ainda sob a dominação árabe. E este é que fazia com que, apesar de estar em ruínas, atraísse a atenção de algum visitante.
 
Este povoado tinha lá suas comodidades tais como: padaria, mercearia, açougue e até um pequeno mercadinho que abastecia a população local.
 
Sem contar ainda que possuía uma igreja medieval aonde o cura vinha de fora a rezar a missa todos os domingos. A igreja era bem conservada. Consequentemente tinha também um cemitério para enterrar os que morressem ali, pois que trasladar o corpo para outras cidades, além de caro o acesso por estradas de terra tornava a empreitada mais difícil.
 
O hotel então existente era pequeno mas aprazível para receber os visitantes, a comida era boa e os quartos bem arejados e limpos.
 
Os moradores todos se conheciam, desde o dono do mercadinho até o açougueiro, este último proveniente de uma família tradicional no ramo de cortar de fornecer carne àquele povo.
 
A população local estava ficando cada vez mais velha e exígua. Os jovens não queriam mais viver ali e buscavam as grandes metrópoles para estudar, trabalhar e algumas vezes constituir família.
 
Os que ali permaneceram se condicionaram a casar com as poucas raparigas locais quando não o faziam dentro da própria família, casando primos com primos, sobrinhas com tios, etc.
 
Rafael de quem vamos tratar e que na intimidade da vila onde nasceu e se criou era por todos chamado de Rafa.
 
Descendia de uma família conhecida por seu ofício, o que sói acontecer muito na Europa. Eles eram por profissão e herança açougueiros.
 
Tinham no centro da vila um prédio que transformaram em açougue desde os tempos de seus bisavós.
 
Neste açougue eram expostos e também conservados os mais diversos tipos de carnes como: cordeiros e cabritos, que criados eram criados em larga escala nesta localidade, haja vista que a formação de pastos e a serra apropriava-se a tal criação. Havia também em menor escala a criação de galinhas poedeiras e para abate, bem como, gado leiteiro com que se abastecia de leite e carne a população.
 
Assim que Rafael se criou vendo e aprendendo a arte de cortar, desossar, separar as partes nobres das mais inferiores a fim de que, conforme o poder aquisitivo de cada um, tudo fosse vendido e consumido pela população.
 
Outra coisa que aprendeu foi manter o seu ambiente de trabalho impecavelmente limpo visando a não contaminação das carnes.
Igualmente, a arte de amolar facas também lhe foi transmitida, fazendo com que, bem afiadas, elas facilitassem seu trabalho.
 
Quando morreu seu pai entre os bens que recebeu como herança, por ser o primogênito da família, lhe foi passada a melhor e mais antiga faca do açougue.
 
Esta faca era tratada com carinho e respeito desde os seus ancestrais. Era considerada uma preciosidade dada a qualidade de seu aço, forjado na Alemanha, que apesar de ser afiada constantemente nunca perdeu sua forma original, tampouco sua capacidade de corte.
 
Esta faca passou de geração em geração sendo utilizada. Rafael pretendia passá-la a seu filho mais velho quando se aposentasse.
 
No entanto, o rapaz não quis seguir com a profissão do pai, preferindo ir à metrópole estudar e se tornar engenheiro.
 
Estando então Rafael já velho e cansado resolveu vender o açougue, mas não a faca.
Quando seu filho voltou para casa Rafael tentou lhe dar a faca ao que ele se recusou a recebê-la, dizendo que em sua profissão ela era absolutamente desnecessária.
 
Neste momento algo estranho aconteceu, o aço da faca brilhou intensamente, ouviu-se então um estalido e ela simplesmente partiu-se ao meio.
 
Rafael quedou-se profundamente perturbado, uma lágrima lhe rolou pelo rosto e com as duas metades na mão pediu que o dia em que morresse fosse com ele enterrada, em seu caixão, a faca.
 
E, alguns anos mais tarde, assim foi feito.
 

Aquelas semanas santas

A

Pedro Rivera Jaro 

Traduzido ao portugués por Silvia C.S.P. Martinson

  Hoje é domingo de Páscoa Florida, ou como também costumamos dizer Domingo da Ressureição.

Hoje os costumes para a maioria dos cidadãos espanhóis são muito diferentes ao que conhecíamos durante os anos de minha infância e de minha adolescência.
Naqueles anos de minhas recordações infantis, finais de cinquenta e princípio dos sessenta, começamos pela Quarta-feira de Cinzas, dia em que nos levavam ao colégio da Igreja Paroquial de San Fermin, a todos bem arrumados, por recomendação de nosso professor.

Na igreja o cura pároco Don Antonio nos dava um sermão sobre o significado desse dia em recordação ao final do período de Jesus Cristo no deserto, e a cinza que simboliza a morte e a pequenez do ser humano ante a grandeza do Criador e nos recordava da vaidade das coisas. Vinha a recordar-nos, igualmente, que somos pó e cinza, unicamente.

Mais tarde chegava o Domingo de Ramos. Era um dia festivo para nós outros os meninos, porque íamos com as palmas as procissões e também estreava-mos algo novo, porque segundo rezava um dito popular: “Hoje que é Domingo de Ramos a quem não estreie algo novo, as mãos se lhe cairão.” Simbolizava a entrada de Jesus em Jerusalém montado ao lombo de uma burrinha, quando os habitantes daquela cidade lhe aplaudiam arrojando a seu passo ramos de oliveira e prostrando-se ao seu passo.

Nos dias seguintes se sucediam: a Última Janta, a Oração na Horta das Oliveiras, o de Getsemani e a prisão de Jesus. Posteriormente era julgado pelos sacerdotes do templo e condenado a ser açoitado e executado. Logo foi levado perante Pilatos que, depois de lavar as mãos o deu à escolha do povo e este escolheu que libertasse Barrabás, o ladrão, e crucificasse a Jesus. Na Quinta-feira Santa foi crucificado.

Tudo isso se representa dentro das igrejas com as imagens de Santos e Virgens cobertos com panos de cor roxa, figurando o luto pela morte de Jesus Cristo.

Naqueles dias não se podia pôr música, a rádio punha música clássica, na televisão somente víamos filmes de temas sagrados como: Quo Vadis, A Túnica Sagrada, Os Dez Mandamentos, Ben Hur, Rei dos Reis, Barrabás, etc.

Até que chegássemos ao Sábado de Glória e os meninos íamos à igreja com recipientes cheios de água, o cura benzia a água, que depois se salpicava pelos rincões da casa. Naquela noite ressuscitava e saia do túmulo.

Por fim chegava o Domingo da Ressurreição no qual voltávamos à normalidade.

Eu recordo que em Madri era o dia de estreia de novos filmes, nos cinemas da Gran Via, que então se chamava Avenida de José Antonio e da Glorieta de Bilbao.

Eram tempos de Nacional Catolicismo, as igrejas se superlotavam de fiéis e não cabia nenhuma alma mais. Muito diferente do que ocorre hoje em dia que não se vêem nunca cheias.

Os jovens de então, em nossa adolescência opinávamos que era exagerada àquela situação e alguns nos convertemos em transgressores daquele luto.

À medida que saímos dos anos sessenta, íamos perdendo o medo de transgredir aquelas normas.

No ano 1968, ou talvez em 1969, nos reuníamos na Semana Santa na serra na Urbanização Entrepinos, pertencente ao precioso povoado de Las Rozas del Puerto Real. Entre os pinhais com um toca-discos que funcionava a pilhas, escutávamos e dançávamos a música Los Brincos, Diana Ross e as Supremas e outros grupos daquela época.

CINCO ÓRFÃOS DE MÃE

C

Pedro Rivera Jaro 

Traduzido ao portugués por Silvia C.S.P. Martinson

  Em Gerindote um pequeno povoado da província de Toledo, muito próximo a Torrijos, que era o núcleo principal daquela comarca em que se localizavam ambos os povoados, nasceram meus avós paternos, Apolonio e Isabel.

O matrimonio formado por Isidoro Rivera Martin e Luisa Soriano Yepes trouxe ao mundo em 1887 um varão a quem puseram o nome de Ignacio Apolonio, na rua Hurtada, número 4, onde viviam e tinham seu domicilio.

Três anos mais tarde, em 1890, veio ao mundo minha avó Isabel, filha do matrimonio formado por Emeterio González Palomo e Petra Rivera Sánchez-Aparício, na rua do Norte, número 7.

Meu avô trabalhou toda sua vida em trabalhos agrícolas, salvo o parêntese do serviço militar, que cumpriu na guerra de Melilla e que conto em outro lugar. Depois de voltar da África voltou a trabalhar para um dos proprietários de terras do povoado, na mesma casa em que também trabalhava minha avó Isabel. Ali se enamoraram e em 1914 se casaram.

Naquela casa meu avô ganhava 5 pesetas diárias. Em 1927 o matrimonio já tinha 5 filhos e decidiram que Apolonio viesse trabalhar em Madri, aonde começou ganhando 8 pesetas diárias e em pouco tempo depois, seu chefe considerou que era um homem muito trabalhador e muito responsável, por cujas razões lhe subiu o salário para 10 pesetas diárias.

Um ano depois, em 1928, buscou uma casa em Madri, aonde pudessem viver os sete juntos e trouxe a avó Isabel e os cinco filhos. Lucia de 13 anos, Luis de 11, Emeterio de 9, Felix de 5 e Victor de 3 anos.

A avó adoeceu muito rápidamente e meu pai Felix me contou como recordava que o médico foi duas vezes a casa para revisa-la. Muito pouco depois Isabel e os filhos voltaram a Gerindote, aonde a bisavó Petra, que era sua mãe, cuidou dela e dos cinco meninos, até que pouco depois faleceu, naquele verão com somente 36 anos. Muito jovem e demasiados filhos.

No dia que faleceu, tio Luis, com 12 anos estava trabalhando no povoado Torrejón de Velasco, levando com uma burra, a comida e utensílios a uma gangue de ceifeiros, ganhando 20 duros(100 pesetas, 0,60 euros) por todo o verão.

Era assim a vida de um menino então. Todos desde pequenos deviam contribuir à manutenção da família.

Recordo que meu pai me contava que com 5 ou 6 anos ganhava 1 peseta ao dia pastoreando ovelhas ou debulhando a colheita no verão.

Um dia que estava em Pradolongo e que chovia a oceanos, no mesmo lugar, aonde, 38 anos depois, eu ia jogar aos sábados o futebol com meus companheiros de bacharelado do Colégio Central, meu pai estava ali com as ovelhas e havia estreado suas alpercatas de lona e cânhamo, aquele mesmo dia, ao pisar o barro santo que se grudava nelas em grande quantidade, começou a chorar amargamente, porque suas alpercatas se iam destroçar. Pobre menino meu pai que não se dava conta, todavia de que, muito mais importante que as alpercatas, havia, perdido a sua querida mãe.

Digo mãe, porque assim o diziam eles, que não estilizaram dizer mamãe, como dizemos agora.
Se algum de nós outros, meus irmãos e eu, cometíamos o erro de responder mal o desobedecer a mamãe e meu pai o presenciava, se montava em cólera e nos repreendia dizendo-nos que não tínhamos nem a mais remota ideia do que significava ter uma mãe.

Isso e depreciar as comidas que nos fazia mamãe, tendo em conta a fome que havia passado ele, eram os mais graves motivos que podiam despertar sua raiva contra nós outros, a quem de outra parte, adorava.

Algum dia que já havia terminado suas tarefas de trabalho, e olhem bem que estou me referindo a um menino de 6 anos, e saia à rua a jogar com outros meninos de sua idade ou parecida e saiam as mães de outros meninos a dar-lhes a merenda, meu pai se metia em casa e se punha a chorar em solidão, porque ele não tinha aquela mãe que tanto quis e que já não podia dar-lhe sua merenda, nem seus beijos, nem seus abraços.

Nunca esqueceu a recordação de sua mãe, a quem sempre mencionava com um tremendo carinho, que se desenhava no brilho de seus olhos e no sorriso de toda sua cara.

Meu avô Apolonio com seus 42 anos ficou viúvo e com 5 criaturas, das quais a maior era minha tia Lucia, a única fêmea, que tinha 13 anos. O mais pequeno dos irmãos era meu tio Victor, com 3 anos. E ela se converteu na responsável de todos, porque meu avô não quis nunca que seus filhos tivessem madrasta.

E assim foi até seu falecimento. 

Sombras

S

Silvia C.S.P. Martinson

Eram dois.
 
As árvores já apresentavam nova brotação, as roseiras já floreciam.
 
O ar era leve e o perfume das flores se espalhava trazendo mais frescor ao mesmo tempo em que as abelhas, em profusão, voavam em busca do néctar tão precioso. Era primavera.
 
O céu de azul intenso confundia-se com o verde das árvores, atraindo aos olhos dos passantes um multicolorido sui generis.
 
Eles caminhavam lentamente.
 
Observavam tudo com atenção enquanto ele explicava a ela a história daquele parque, por quem e porque fora criado, detendo-se em cada lugar onde o tempo e os fatos deixaram suas marcas.
 
Ela ouvia, atentamente, porque com ele conseguia viajar no tempo.
 
Ele lhe descrevia os detalhes, as nuances e os fatos ocorridos em cada sitio. O fazia de forma tão natural como se ali estivera e vivivenciara tudo em seus mínimos detalhes.
 
Ao mesmo tempo os dois embevecidos usufruíam da presença mútua um do outro.
 
Era um momento de intensa ternura e encantamento e que os fazia sorrir ante tanto envolvimento.
 
Havia como um que de lembranças aflorando às suas mentes.
 
Caminhavam lentamente.
 
Ao aproximarem-se de um portal que dava acesso ao parque depararam com uma placa que há via no solo.
 
O sol agora estava forte.
 
O passeio tão ansiado, programado e permitido estava no fim. Eles o sentiam e anteviam a dor da separação sem, no entanto, comunicá-la um ao outro.
 
Caminhavam lentamente.
 
Dirigiram-se até a placa, olharam a data nela inserta. A memória se lhes aclarou, entenderam enfim que retornavam ao lugar onde sempre se encontravam quando queriam estar juntos, isso a muito e muito tempo.
 
Por sobre a placa beijaram-se e concluíram o que se passava finalmente.
 
Eram tão somente... Duas sombras do passado.

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