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As duas

A
Dibujo que ilustra el texto "Las dos"

Silvia C.S.P. Martinson

A praça estava plena de luz. Um sol diferente de todos a iluminava e fazia com que as cores dos objetos que ali se encontravam resplandecessem. As duas caminhavam separadamente, devagar, absorvendo o ar puro que se respirava naquele recanto, o clima ameno e a beleza de tudo que as cercava.

E eis que encontram um banco acolhedor e dele se acercam. Todavia, ainda não se conhecem, mas sentem uma certa afinidade e começam a conversar. São oriundas de pátrias diferentes e longínquas. Uma é espanhola e chama-se Rosita. A outra é brasileira de nascimento, embora seus pais fossem russos e lhe tenham dado o nome de Aurea; era sua primeira filha naquela terra, pois os outros doze irmãos eram europeus.

Rosita, mais desinibida, começa a entabular uma conversa com Aurea e conta-lhe sobre sua ascendência familiar. Era a décima filha de uma família pobre, o que trouxe grandes dificuldades para criá-la e a obrigou a casar-se cedo, para que o homem que a desposou a sustentasse e, automaticamente, aliviasse as despesas de sua permanência naquele lar. Contou ainda que, de seu matrimônio e pelos costumes então vigentes — quando ao homem eram dados todos os direitos de mando, inclusive o de dispor sexualmente do corpo da mulher, pouco importando se a ela agradava ou não —, lhe advieram seis filhos. Criou-os com muita dedicação e grande esforço, porém com disciplina e boa formação moral, fazendo com que se tornassem homens e mulheres competentes, cultos e úteis a si próprios e à sociedade. Todos os filhos de Rosita cursaram universidades e eram altamente reconhecidos por seus talentos e qualificações.

Rosita calou-se por algum tempo. Aurea, então, narrou a epopeia de sua vida. Contou que seus pais, na Rússia, eram pessoas cultas, que gozavam de uma vida estável, cômoda e com acesso à educação e à cultura, mas, por circunstâncias políticas, tiveram que emigrar e, em consequência, escolheram o Brasil, uma terra nova com grandes possibilidades, para ali viver e criar sua família.

Enganaram-se. As terras para as quais emigraram eram semisselvagens. A vida ali era dura; havia animais bravios e desconhecidos para eles. Face à diversidade do clima, à dificuldade de adaptação àquele lugar quase inóspito e ao trabalho a que não estavam acostumados, faleceram os dois. Ele, em um riacho, após a queda de um cavalo que montava, que o esmagou contra o solo. Ela sofreu uma pneumonia da qual não conseguiu curar-se, algum tempo depois da morte de seu marido.

Os filhos ficaram órfãos e, com eles, Aurea, aos quatro anos de idade. Os mais velhos assumiram a criação dos mais novos. Aurea foi entregue a uma irmã casada que vivia em outra cidade e que fez dela sua empregada doméstica, não lhe permitindo uma educação refinada como a que dava à sua filha única. Aurea cursou somente até o quarto ano do primário. Anos depois, casou-se também com um homem de origem europeia, cujos pais eram alemães. Aurea, apesar da pouca escolaridade, era uma leitora voraz e adorava música, especialmente a clássica e as óperas.

Assim, conversando, as duas falaram de suas famílias atuais, de seus filhos já adultos e de seus netos. Disseram que ainda sentiam preocupação pelo futuro de todos, face às guerras mundiais que se avizinhavam de novo para a humanidade. Preocupavam-se por seus filhos: Aurea, pelas suas duas filhas que, apesar de cultas, eram sensíveis e dedicadas à cultura, não sendo tão pragmáticas quanto os filhos de Rosita.

O tempo passava e elas não se davam conta de que ali já estavam há um longo período, tal a afinidade que sentiam uma pela outra e a infinita beleza do lugar. Observando tudo o que se passava ao derredor e desfrutando daquela imensa paz, por fim entenderam...

Aquele lugar merecia suas histórias. Haviam partido. Suas almas, agora livres e felizes, há muito não habitavam velhos corpos.

A vida de sacoleiro

A
Dibujo que ilustra el artículo "matutero"

Alfredo Bone Riquelme

Aqui está a tradução para o português brasileiro, adaptada para manter o tom narrativo e o vocabulário adequado:

E assim comecei a vida de "matuteiro" (ou "sacoleiro"). Um dia pensei que seria uma boa ideia cruzar as fronteiras do meu país e me internacionalizar na "arte" do matute. Tomei um voo para São Paulo.

Aterrissei, já tarde, no aeroporto de Guarulhos, que fica a aproximadamente uma hora da cidade. Cheguei à noite, com as ruas quase vazias, ao centro de São Paulo, em um calçadão chamado João Mendes, se é que se escreve assim.

O hotel era pequeno, mas meu quarto tinha vista para o calçadão, que durante o dia fervilhava de atividade. Percorri as ruas e imediatamente me apaixonei por São Paulo e pelo Brasil. A afabilidade das pessoas era extraordinária; a alegria se sentia só de pisar naquele asfalto interminável por onde corria a Avenida Paulista ou ao chegar ao bairro comercial, onde coreanos, japoneses e outros imigrantes tinham suas fábricas e lojas cheias de mercadorias.

Havia roupas de cores incríveis e música que preenchia tudo. Era impressionante ver, de repente, um rapaz pegar um latão e começar a batucá-lo com um ritmo de candombe; logo, outros se uniam a ele com instrumentos improvisados, formando uma banda de rua que durava alguns minutos, com pessoas cantando ou dançando. Depois, todos se dispersavam para continuar seus labores habituais. Era subjugante.

As ruas estavam cheias de carrinhos carregados de abacaxi, que cortavam em dois golpes de facão para oferecer pedaços doces que se desmanchavam na boca. As mulheres eram exuberantes e belas, cheias de uma alegria que, ao caminhar, fazia com que gingassem os quadris com um ritmo que deixava tonto.

Bastava sentar um pouco em uma mesa para desfrutar daqueles grandes copos rebosantes de espuma de chopp Brahma para que, em poucos minutos, você estivesse conversando com vários desconhecidos que já pareciam amigos de toda a vida.

Ali encontrei uns amigos brasileiros que conhecia da Bolívia e com os quais compartilhamos algumas noites de farra. Levaram-me ao "Bixiga", o bairro das casas noturnas em São Paulo, e ali me perdi em uma infinidade de locais, um ao lado do outro, onde a música soava e as dançarinas se moviam sem pudor.

Meus amigos me levaram a um local que estava repleto de gente e me pediram para entrar. Apenas o fiz, senti que muitas mãos me tocavam por todos os lados e, tomado de espanto, saí correndo para encontrar meus amigos do lado de fora, rindo. Era um bar gay.

Mas minhas caminhadas pelos diferentes centros comerciais da cidade me proveram de muita mercadoria que logo levaria ao Chile. E assim foi minha primeira viagem ao Brasil.

As viagens seguintes — pois comecei a viajar quase uma vez por mês — foram por terra, em uma linha de ônibus chamada "Pluma", que viajava de Santiago a São Paulo e a outros destinos como Argentina e Paraguai. Para São Paulo, demorava três dias e três noites, nos quais aqueles que subíamos sendo totais desconhecidos chegávamos sendo amigos de toda a vida.

Durante o trajeto, armavam-se festas: bebíamos, cantávamos e compartilhávamos nos lugares onde o ônibus parava. Mais de uma vez compartilhei quarto de hotel em São Paulo com algum amigo conhecido na viagem.

Aprendi muito com esses percursos. Aprendi que a melhor comida não estava nas rodoviárias, mas geralmente ao lado, nas paradas de caminhões, onde era mais abundante, melhor e mais barata.

E conheci o "Papi".

O Papi ajudava o dono do restaurante de beira de estrada que se encontrava na rota 123, no meio da província de Santa Fé, apontando para a fronteira de Uruguaiana. O ônibus chegava — quando vínhamos do Chile — por volta das seis da manhã; e às quatro da tarde, quando voltávamos do Brasil.

Quando chegávamos lá, o Papi tinha as grelhas acesas, com os pedaços de carne prontos sobre o fogo e as batatas fritas recém-feitas. Havia café quente com "la galleta", um pão de casca dura, ideal para passar manteiga.

Atrás do restaurante — que era uma casa sem placas no meio do nada — havia um quarto equipado com chuveiros para homens e mulheres, onde corríamos para tomar banho e trocar de roupa antes de prosseguir com a viagem.

Pouco a pouco, estabeleci uma relação com o Papi. Era um homem simples, alto e robusto, de grossos bigodes pretos. Um gaúcho sem cavalo nem boleadeiras.

Entre uma conversa e outra, ele me perguntou o que eu comprava no Brasil. Quase todos no ônibus se dedicavam a alguma forma de negócio, então não era raro que supusesse que eu andava nessas corridas. Adentrando no papo, ele me pediu que lhe trouxesse alguns produtos daqueles que se conseguem em lojas de artigos sexuais, já que na Argentina a venda era proibida.

Dito e feito. Em São Paulo, comprei algumas revistas eróticas, aerosóis chamados "Stud" para prolongar o orgasmo, um ou outro consolador e algum filme para passar as tardes de tédio na solidão do quarto.

No retorno, o Papi comprava tudo de mim. Assim estabelecemos uma relação de negócios onde eu trazia muitos desses elementos de prazer e ele ficava com quase tudo. Era dinheiro fácil e seguro.

Eu seguia para o Chile com minhas malas — que eram várias — carregadas daquela bela roupa íntima que no Chile ainda não era conhecida. De todas as cores: rosas, vermelhos, verdes intensos, pretos com rendas transparentes… Essa roupa se vendia rápido, como hoje se vendem os produtos da Victoria's Secret. Fora isso, trazia camisetas, calças, roupas de banho, etc.

A vida era uma viagem eterna e prazerosa, ainda que longa e cheia de nuances.

A mulher que caminavha

A

Silvia C.S.P. Martinson

Ela caminhava devagarinho, ia recordando... Lembrava-se de quando era jovem, bonita e cheia de sonhos. Recordou a sua família, os seus pais tão tradicionais e restritivos em seus hábitos e costumes, que viviam a aborrecê-la com preconceitos tão comuns à época. Queriam que ela fosse circunspecta, que não sorrisse, nem falasse com pessoas desconhecidas e, tampouco, delas se aproximasse. Quanto a ter namorados ou relações sexuais antes do casamento, nem pensar!

Tentaram convencê-la de que uma moça decente não deveria pensar em sexo com quem lhe atraísse a atenção; isso somente era permitido às prostitutas, às mulheres de "vida fácil", como diziam eles. A ela, cabia apenas estudar e preparar-se para exercer um trabalho digno e discreto, sendo submissa ao homem com quem um dia iria casar-se.

Enquanto caminhava, agora já com 70 anos, ao lembrar-se de tudo isto, esboçou um sorriso involuntário. Recordou que, aos 18 anos, insubordinou-se contra a filosofia dos pais: foi trabalhar como secretária, saiu de casa e alugou um apartamento para morar sozinha. Foi então que veio a guerra. Seus colegas de escritório foram convocados para lutar. Entre eles havia um, especialmente bonito e liberal, que a atraía sobremaneira. Antes de partir, ele a convidou para jantar e ela, encantada, aceitou.

Após o jantar, caminharam em direção à casa dela, onde o convidou para uma bebida. Entre algumas taças de vinho, beijaram-se e fizeram sexo apaixonadamente. No dia seguinte, despediram-se e ele partiu para o combate. Não voltou nunca mais. Nostalgicamente, ela lembrou-se do que restou dessa fugaz união: uma gravidez que a obrigou a criar um filho praticamente sozinha, o que fez com que sua família a rejeitasse definitivamente.

Após anos de luta, seu país ganhou a guerra. No trabalho, por sua dedicação e competência, ela sobressaiu-se às colegas e galgou uma posição de destaque. O dono da empresa, um viúvo bem mais velho, passou a observá-la com um interesse que ia além do profissional; admirava sua beleza, suas maneiras liberais e sua forma de se vestir. Sem preâmbulos, convidou-a para casar. Ela aceitou, com a condição de levar o filho. Ele, um homem só e sem família, aceitou a criança como se fosse sua.

Todos esses fatos voltavam à memória enquanto ela seguia seu caminho. O filho tornou-se um homem inteligente e capaz; formou-se em Direito e, após passar em um concurso, tornou-se um diplomata respeitado que hoje vive na Suíça. O pai adotivo morreu já idoso, deixando-lhes uma fortuna que a permitia viver com tranquilidade.

O mundo estava agitado novamente. Países disputavam poder e dinheiro em novas guerras, com dirigentes alheios ao sofrimento do povo. Pensando em tudo o que passou e no cenário atual, ela sentiu-se extremamente cansada. Dirigiu-se a uma praça de que gostava muito, adentrando um jardim repleto de árvores floridas — era primavera e o perfume inundava o ar.

Em um banco, sob uma árvore frondosa, sentou-se para aspirar a fragrância das flores. Um leve sorriso esboçou-se em seu rosto e seus olhos se fecharam. Ali adormeceu... para sempre.

As botas

A

Silvia C.S.P. Martinson

João, esse era o seu nome. Recebeu-o ao batizar-se porque seus pais tinham uma enorme fé em São João Batista, aquele que em vida anunciou a vinda de Cristo. O santo, de reconhecidos poderes, era comemorado precisamente no dia 24 de junho por ter sido um mártir e um homem justo. João nasceu em um 24 de junho, há precisamente setenta anos.

Viveu muito e intensamente. Foi um menino pobre de uma família numerosa, composta pelos pais e mais cinco irmãos mais novos. Desde pequeno, aprendeu a ajudar em casa: auxiliava a mãe nas lides domésticas e no cuidado com os irmãos menores; ao pai, ajudava no trato das galinhas e na horta, providenciando para que não faltasse adubo ou água às hortaliças que a família consumiria.

Todavia, a educação não lhe faltou, apesar das dificuldades financeiras. Seus pais tinham consciência de que o estudo era fundamental para o sucesso profissional dos filhos. Com grande sacrifício, matricularam-nos em escolas públicas, onde frequentavam as aulas modestamente vestidos, mas sem que jamais lhes faltassem livros ou cadernos para um bom desempenho.

Assim, João foi o primeiro a frequentar a escola, terminando com brilhantismo os cursos básicos e encaminhando-se à Universidade. Cursou a faculdade à noite, pois, à época, já havia conseguido emprego em uma casa comercial onde trabalhava em tempo integral. Por sua dedicação e competência, era plenamente respeitado e bem-quisto.

O tempo, amigo inexorável dos vivos, passou; e com ele transcorreram as experiências de João, tanto as positivas quanto as aparentemente negativas. Casou-se com a filha do dono da empresa em que trabalhava, abrindo mão da moça que o amava muito em prol dessa nova relação, mais auspiciosa a seu ver. Foi feliz nesse casamento, teve filhos e os educou dignamente, de acordo com as posses que tinha então. Havia se tornado um homem rico.

A moça que o amava também seguiu com sua vida profissional e veio a casar-se algum tempo depois. Teve três filhos que só lhe deram alegrias, tornando-se homens altamente qualificados: um diplomata, que representou o país na Europa, e os outros dois, um engenheiro e um arquiteto, que fundaram uma empresa juntos, gozando de excelente conceito e clientela.

O destino, porém, trouxe suas perdas. O marido dela faleceu jovem, vítima de uma doença fulminante. A mulher de João também morreu cedo. Ele seguiu cuidando dos filhos sem, no entanto, voltar a ter qualquer relação sentimental desde então.

Aquela moça a quem amara na juventude chamava-se Maria Dolores. Todavia, para amigos e familiares, o nome "Dolores" caíra no esquecimento; todos a chamavam simplesmente de Maria. Ela, como tantas outras Marias neste mundo, teve seus momentos de alegria somados aos de tristeza, mas seu caráter forte permitiu que vivesse tudo como fatos inerentes ao ser humano, suportando-os plenamente.

A vida seguiu sua trajetória e a velhice bateu à porta de ambos. Em uma viagem esperada por dois — embora não se falassem nem se vissem há muitos anos —, encontraram-se num ônibus, como companheiros de assento. Um ao lado do outro. A viagem era longa, rumo a um país vizinho. Desse encontro e das conversas sobre suas vivências, a antiga atração voltou a ser sentida.

Ao chegarem ao destino, não se separaram mais. Passearam e desfrutaram juntos de cada momento de beleza e novidade. Estavam felizes, com planos de viverem juntos definitivamente assim que retornassem.

Durante toda a viagem, João usou suas botas novas com cuidado e carinho; sentia-as como um amuleto de sorte, já que só pudera comprá-las após muitos anos de trabalho.

Certa noite, ao abrir a porta de seu quarto no hotel, Maria deparou-se com uma linda mulher que lhe sorria. Esta estendeu-lhe as mãos e a abraçou com enorme carinho. Fascinada pelo abraço, Maria adormeceu nos braços da estranha e bela criatura, que alçou voo em direção às estrelas, conduzindo a alma da velha senhora, cujo corpo ficou desfalecido no solo para sempre.

João, desconsolado, voltou para casa ainda calçando as tão ambicionadas botas. Ao chegar, com a tristeza guardada no coração, pensou que aquele calçado só lhe havia causado desgosto.

Descalçou as botas e limpou-as — ainda estavam novas. Foi até a calçada em frente à sua casa e, num muro coberto de flores, deixou-as num intervalo entre as pétalas. Esperava que um passante inadvertido as recolhesse, pensando ser uma boa aquisição. Quem sabe... para outro, elas trariam um destino diferente.

Se eu soubesse ler

S

Álvaro de Almeida Leão

O Aguinaldo, agricultor, solteiro, 23 anos, excelente formação moral, sem saber ler nem escrever, vindo do interior para tentar melhores condições de vida no litoral, conseguiu emprego na cidade grande, por mais modesta que esta fosse, pois era muito valente e em contrapartida, educado, correto e inteligente. Soube, por intermédio de outros também em maus lençóis, que, se soubesse ler e escrever, teria a porta aberta na maioria do prestígio encaminha para empresas pessoas e até de funcionar.

Aguinaldo não pensou duas vezes: frente a frente com o responsável da Organização Não Governamental, solicita-lhe ajuda. Casualmente, no outro dia haveria uma festa nas dependências da Organização, onde o mesmo necessitaria de mais pessoas para arrumação do salão de eventos. Aguinaldo se prontifica para o serviço, mesmo que de graça, pois deseja pedir mais, aceita o convite e imediatamente começa a colocar a mão na massa. Em menos tempo que o esperado, Aguinaldo está à servir mesa de um dos convidados que havia sido solicitado a estava impecavelmente concluído. O seu jeito atencioso, polido, com o serviço do moço, e a simpatia de seu sorriso alegre, atraiu a atenção dele, que a mão a ser de agricultor, que dificilmente conseguiria emprego na cidade, estava ali implorando, implorando a equipe de auxiliares de serviços gerais, procurando, justamente, a mesma, o emprego.

Obsequioso, educado, comunicativo, Aguinaldo é bem quisto por todos. Há, porém, uma restrição à sua continuidade no emprego: legalmente, o registro de alguns telefones, e a escrita, a que sempre lhe falta, o registro de alguns detalhes, e o Aguinaldo não consegue anotá-los, por ser analfabeto.

O coordenador, zela por algum tempo a resolução de dispensá-lo do cargo, do funcionário que mais serve, e que mais resistir às pressões. Muito a contragosto, dá a triste notícia ao Aguinaldo, propondo-lhe o desligamento como emprego oportunamente.

Aguinaldo fica muito pesaroso. Não vislumbra outro emprego à vista, e a saída daquele lugar, quanto lhe doía, e a que fez jus. Despede-se e sai nervoso.

No final da festa, a equipe de pessoas de cafezinho esperam. Procura na imediações um local onde possa satisfazer sua necessidade momentânea de acalmar-se.

Não encontra. Por toda a vizinhança observa que, num rápido comércio, existe uma grande procura e boa venda de cafezinhos. Esse fato faz com que lhe surgisse a ideia de montar um pequeno negócio. Pensou, pensou, e trata de parecer-lhe um futuro promissor.

Mas, para que possa pôr em que pudesse iniciar suas atividades. Conhecido de todos, facilmente o encontra, com alguns amigos, um dos poucos que lhe restou. Com o colega, alugam uma máquina de fazer café, com boas condições, um balcão, dois bancos de madeiras, duas mesas, três bancos pequenos, uma geladeira, dois pequenos balões, açucareiros, guardanapos e demais acessórios de que necessitaria. E aí, parte para o seu novo desafio, pensando para o início de seu pequeno negócio.

Aguinaldo arruma o seu balcão com a freguesia assídua. Expande-se a ponto de poder abrir em outros bairros novas sucursais.

Revista sistematicamente seus lucros. Começa a adquirir os ingredientes que lhe abriram novas ideias. Enriquece o seu cardápio: pães doces e salgados, bolos, sanduíches, tortas salgadas e doces, cucas especiais, salgadinhos e outros. Depois, vem a inovação: o famoso Pão com capricho que fazia gostas!

A sua dedicação ao trabalho que diariamente encontra tempo suficiente para percorrer, com satisfação, seus balcões e suas sucursais. Começa a se expandir para shopping centers, verificando seu perfeito funcionamento.

Em vez de aplicar todo o capital, prefere a compra de um pequeno hotel para se expandir seu negócio para ser maior. O Cafezinho do Aguinaldo já é famoso até fora do Estado.

Agradecido pelo fato de tudo ter mudado em sua vida, na semana seguinte, viaja à cidade, a pedido do negócio de cafezinho. Aguinaldo decide fundar uma indústria de pães e bolos. O nome da sua indústria: Padaria e Confeitaria do Café do Aguinaldo.

Aguinaldo determina a que se candidate a um emprestimo, e a fim de obter o capital necessário para a próxima fase comercial de expansão, por um banco estatal. Aguinaldo acata a ideia e dirige-se ao banco.

É recebido de braços abertos pelo gerente: – Qual o valor do empréstimo pretendido? – Venho solicitar um empréstimo. Estou em intenções de comprar a rede de hotéis.

– Mas que prazer, Aguinaldo. Não sabia. Honra a sua visita a nossa empresa. Temos muito prazer em servi-lo. O seu nome já é uma grata surpresa. Vamos assinar o contrato do quanto solicitar. Seu crédito conosco é ilimitado.

Dito isso, o gerente lhe alcança um contrato de abertura de crédito para que ele possa dar sua assinatura. Aguinaldo, nesse instante, sente-se muito envergonhado e humildemente responde:

– Sou infelizmente não posso assinar. Por enquanto, ainda sou analfabeto.

Nesse instante, o gerente havia anelado o imagine o que o senhor seria se soubesse ler.

Ele era o empregado de sala, perfeitamente útil, aos auxiliares de serviços gerais, numa Organização Não Governamental.

Suspiros

S

Silvia C.S.P. Martinson

Ela vestiu-se toda de branco. O vestido cobria-lhe todo o corpo, não deixando nenhum pedacinho descoberto. Ele era, naquele dia, translúcido, brilhante e de uma luminescência raramente vista antes.

O corpo dela era redondo, estava em sua plenitude de beleza e apresentava em seus picos e relevos formas sedutoras, porém um tanto ensombradas.

Ela queria seduzi-lo de qualquer maneira. Não pretendia, de modo nenhum, perdê-lo de vista ou que ele, nem que fosse por breves minutos ou horas, deixasse de admirá-la e a fizesse feliz por desejá-la tanto.

Estavam os dois próximos ao mar, todavia, os separava uma grande distância. Praticamente insuperável. Todos o sabiam, menos eles, apaixonados que eram um pelo outro.

Mantinham sempre a esperança de que um dia, talvez, em um futuro próximo, pudessem enfim abraçar-se e beijar-se intensamente. E nesta espera, ela aguardou toda a noite para que, por fim, pela manhã, eles se encontrassem.

Aos poucos, o céu foi inundando-se de claridade. No mar, os pássaros, em bandos, já buscavam seu alimento, pousando nas águas onde os peixinhos nadavam livremente. Os barcos zarpavam do porto rumo ao oceano profundo, onde com suas redes recolheriam os cardumes de que necessitavam para a sobrevivência dos humanos.

E eis que, naquele momento, ele aparece no horizonte, trazendo em seu caminho uma explosão de cores que inundou as restantes sombras da noite de muita luz e beleza. Cores que iam do amarelo brilhante ao vermelho púrpura.

Ele a procurou para uma vez mais abraçá-la e beijá-la com intensidade. Ela, feliz, o recebeu, neste dia, por mais tempo que o normal.

Ela queria permanecer onde estava, o desejava intensamente, todavia, sua luz e beleza foram-se apagando pouco a pouco, enquanto ele se tornava mais forte, mais ardente, mais desejoso de com ela definitivamente ficar.

A Terra, mãe cruel, invejosa da beleza dos dois, interpôs-se em seus caminhos, fazendo com que ambos, novamente, não pudessem mais se ver naquele dia.

No entanto, no coração dos dois a esperança continua a existir. A Lua branca e resplandecente espera poder, em um dia qualquer, abraçar e acariciar o seu eleito, o tão exuberante e sempre apaixonado Sol.

E ele, o Sol, em sua caminhada eterna, continua à procura de um lugar onde possa se esconder para, poder, enfim, chorar.

Vigilância e Controle

V

Terezinha Helenelli Lucero de Carli

 

João Pedro é um jovem cheio de sonhos, sempre quis se formar em Ciência da Computação. Ele desenvolvia jogos para grandes empresas e também trabalhava para o governo. João Pedro adorava tecnologia e não saía de casa sem antes conferir no aplicativo o horário em que o ônibus passaria em sua parada. Isso facilitava a vida dele e das pessoas que usavam o transporte coletivo. Existiam também aplicativos onde era possível também realizar o pagamento de contas, adquirir passagens, fazer reservas e executar outras tarefas do dia a dia de forma prática e eficiente.

Ele vivia em um mundo online e, às vezes, quando saía com os amigos, ele comentava sobre o trabalho e que tinha se dado conta de que tudo estava digitalizado. Um de seus amigos, o Victor, disse que realmente a tecnologia estava avançando em todos os setores. Tinha o lado bom e o ruim. Ele também sentia um desconforto. Até mesmo andar na rua ou ficar na frente de casa, sem ser vigiado, era uma liberdade que ele não tinha.

João Pedro disse que o governo controlava a população em todos os sentidos — não apenas em sua cidade ou em seu país, mas no mundo inteiro. Toda a população mundial era monitorada onde houvesse tecnologia. Com a introdução de sensores inteligentes, é possível monitorar quase tudo. O controle urbano contribui para uma cidade mais eficiente e sustentável. Isso inclui o tráfego, a poluição e a ocupação de espaços públicos. A tecnologia também otimiza o funcionamento de elevadores em prédios comerciais e residenciais, por exemplo.

Para João Pedro, no entanto, toda essa tecnologia era preocupante, pois os cidadãos não tinham mais privacidade. Ele estava sufocado, não se sentia mais seguro na cidade onde vivia.

Enquanto isso, os idosos enfrentavam dificuldades de comunicação. Muitos não conseguiam utilizar o parquímetro para estacionar e os que conseguiam, levavam minutos. Isso se repetia em vários estabelecimentos. Dona Setembrina, por exemplo, havia perdido o marido, Justino, em um acidente de carro. A tragédia a mergulhou em uma profunda depressão, e ela perdeu o gosto pela vida. Passou muito tempo reclusa em casa, enquanto o mundo evoluía rapidamente.

Certo dia, começou a faltar mantimentos em casa. Então, ela decidiu ir ao supermercado onde costumava fazer compras com o marido. Calçou os sapatos e saiu, a passos lentos e com o rosto cabisbaixo. Ao chegar, viu que o local havia sido todo modificado. Havia uma placa logo na entrada com a mensagem: "Para entrar, sorria." Ela entrou em pânico — desde que perdera Justino, não sabia mais o que era sorrir. Não conseguiu passar pela catraca. Voltou para casa resmungando.

No caminho, João Pedro a encontrou e a cumprimentou:

- Tudo bem com a senhora?

- Nada bem… não consegui fazer minhas compras. Tudo é digitalizado… olha se estou com ânimo para sorrir!

João Pedro era vizinho de dona Setembrina e sabia da sua situação.

- Pode deixar que eu faço as compras para a senhora. É só me dar a lista.

Ela aceitou e ficou agradecida.

João Pedro então se lembrou de um professor que vivia estressado com o trabalho. Um dia, o professor contou que estava atrasado para uma reunião. O sinal de trânsito demorava a abrir. Sem perceber, ele apertava insistentemente o controle remoto do portão da escola achando que poderia abrir o sinal de trânsito. Só quando chegou na escola e usou o controle, viu o que tinha feito. Casos como esse aconteciam todos os dias nesse mundo digitalizado. Alguns se adaptavam à tecnologia, outros nem tanto.

Certo dia, João Pedro enxergou que o mundo estava sendo observado pela vigilância e o controle. Tentou alertar a família e os amigos mais próximos, mas não teve êxito — achavam-no paranoico. Um dia, em seu apartamento, comentou para si mesmo que odiava aquela vida.

De repente, seu celular vibrou:

- Desculpe, João Pedro, em que posso ajudá-lo? Perguntou uma voz robótica.

João Pedro levou um susto:

- Quem é você?

- Sou o assistente virtual do seu celular. Estou aqui para ajudá-lo.

Ele se sentiu desconfortável:

- Não preciso de ajuda, disse.

Nesse momento, a Alexa da sala também se ativou:

- Posso ajudar em algo, João Pedro?

- Não, não preciso de ajuda. Repetiu, agora, mais tenso.

Mesmo assim, a Alexa insistiu:

Você mencionou que odeia essa vida. Posso sugerir algumas opções de ajuda?

João Pedro se sentiu invadido. Ele percebeu que tanto o celular quanto a assistente virtual estavam ouvindo suas conversas, mesmo quando não os estava usando ativamente. Desligou os aparelhos imediatamente. Começou a se questionar se havia outras formas de vigilância em sua vida.

Então, passou a investigar uma empresa que havia enviado uma mensagem oferecendo serviços de segurança e monitoramento de dados. A proposta era ajudá-lo a proteger sua privacidade online. No entanto, ele ficou intrigado: como eles sabiam que ele estava preocupado com sua privacidade?

Ao investigar mais a fundo, descobriu que a empresa trabalhava em parceria com o governo para monitorar as atividades dos cidadãos.

Decidido, João Pedro optou por fugir e recomeçar sua vida em um lugar sem acesso à tecnologia. Ele retirou suas economias do banco, fechou todas as contas, arrumou a mochila, colocou-a no carro e partiu ao encontro de um senhor que disse ter uma casa para alugar.

Ao chegar, explicou brevemente sua situação e disse que não queria ser encontrado por ninguém. O senhor mencionou uma casa abandonada que pertencia a um conhecido no meio do mato. João Pedro aceitou. Caminhou por entre arbustos, sentindo o sol no rosto e o vento nos cabelos. Parou à beira do rio, olhou a água correndo e jogou o celular dentro, vendo-o afundar lentamente. Sentiu um aperto no peito e, ao mesmo tempo, um alívio.

Seguiu em frente até chegar ao casebre. Ele estava deteriorado, mas João Pedro decidiu reconstruí-lo. Pensou em instalar energia solar e começou a se conectar com a natureza.

Ao entardecer, os trabalhadores locais se reuniam em um bar para conversar sobre plantação, colheita e outros assuntos banais. O que levaria um jovem da cidade a morar no meio do mato? Será que ele era um fugitivo da polícia? Ele era diferente dos moradores locais que nasceram e trabalhavam na região.

Aos poucos, ele fez contato com os moradores locais, que no início desconfiaram do jovem da cidade. Com o tempo, ele aprendeu com eles sobre a vida no campo, a agricultura e a criação de animais. Dia após dia, foi se familiarizando com o manejo da terra para a plantação e comprou sementes e mudas de hortaliças para dar início à sua nova empreitada. 

Ainda assim, João Pedro pensava frequentemente, no que havia deixado para trás. Perguntava-se se estava apenas se iludindo. Ele descobriu que não era o único a ter fugido da vigilância.

Ficou surpreso ao saber, pelos moradores, que o controle também estava presente no campo, mapeando a área de cada proprietário. Por enquanto, segundo eles, estavam seguros, mas ninguém sabia por quanto tempo. Tudo era visto por satélites.  Durante o dia, João Pedro trabalhava nas terras que ocupava, e à noite saía para fazer compras; receava estar sendo monitorado. Ele pensou em se conectar com a família através do senhor onde havia deixado seu veículo, mas isso era mais à frente. Ele ficou preocupado quando viu um drone sobrevoando o povoado, mas também se sentiu aliviado, pois estava bem distante de sua moradia. João Pedro sabia muito bem como a privacidade é importante e que os cidadãos devem estar no controle de seus dados. A falta de privacidade pode levar a doenças mentais. Enquanto João Pedro lutava por liberdade, seu amigo Victor - um habilidoso hacker conhecido apenas como “Pool” - vasculhava o submundo digital em busca de seu paradeiro. Agora, era ele quem controlava a cidade.

Numa noite sossegada, João Pedro caminhava sob o céu claro. Parou por um momento, fitou as estrelas e, em pensamento, questionou-se:

- Será que fiz a coisa certa?

 

 

O mestre

O

Silvia C.S.P. Martinson

 

O discípulo tinha imensa saudade dele e o lembrava amiúde em suas caminhadas diárias.

Lembrava-se de quanto os dois conversavam todos os dias e também das histórias que ele, o Mestre, sempre tinha para lhe contar.

Havia também passado a ele, seu discípulo, através de seu exemplo, as diversas maneiras de enfrentar a vida e os obstáculos que esta, todos os dias, lhes punha à frente nas mais diversas formas, a fim de que, sabiamente, conseguissem superar as dificuldades com êxito.

O Mestre, aos poucos, e confiando na discrição de seu aluno, com o tempo e os anos, foi-lhe contando passagens de sua vida, acima de tudo objetivando com isso a aprendizagem do discípulo. Ele sabia que este, nesta vida, seria o último, porque a sua missão já estava quase completada naquele lugar.

O caminho do Mestre havia sido longo e, algumas vezes, difícil.

Nascera em uma família cujo pai viera de progenitores imigrantes fugidos das guerras, e de uma mãe órfã criada pela irmã, que dela somente se aproveitou para que criasse a sua filha e servisse como empregada doméstica em sua casa, proporcionando-lhe pouca educação e escolaridade.

Apesar das dificuldades, os pais do Mestre, ao se casarem e tomarem conhecimento, mais adiante, de que teriam um filho, resolveram, dentro de suas possibilidades, proporcionar-lhe um nível melhor de educação do que tiveram.

Então ele veio ao mundo trazendo em sua bagagem espiritual o conhecimento de que teria dificuldades a serem superadas, ao mesmo tempo em que, em sua vida, deveria acolher outros em seu caminho, a quem, por sua eleição no plano espiritual, havia se comprometido a ajudar a se desenvolverem e a crescerem como seres humanos inteligentes e bondosos.

As experiências sofridas pelo Mestre a fim de que fizesse jus a esta palavra foram muitas vezes difíceis de superar. Todavia, sua força de vontade e confiança em si mesmo fizeram com que fosse vencendo todos os obstáculos propostos.

Por sua vontade, foi trabalhar muito cedo enquanto estava estudando, objetivando com isto aliviar a carga doméstica de seus pais, que já estavam ficando mais velhos.

Teve sucesso neste empreendimento: concluiu seus estudos, apesar de trabalhar o dia todo em uma empresa bancária. O que o fez em colégios que tinham classes noturnas e eram públicos. Voltava cansado para casa, mas feliz por mais um dia de conquistas.

A Universidade cursou-a à noite e dela saiu com reconhecido brilhantismo por seus professores, que o elegeram para representar os seus colegas na formatura oficial.

Ao longo de toda esta trajetória, deixou pelo caminho somente amigos, aos quais, por sua personalidade e maneira de agir, semeou bons exemplos, tais como: confiança, determinação, paciência e compreensão quanto às diferenças de personalidade e educação de cada um.

Casou com uma mulher a quem dedicou afeição, respeito e que lhe proporcionou momentos de alegria com a chegada de filhos, e também estados de tristeza quando ambos partilharam doenças e grandes dificuldades financeiras que ocorreram em suas vidas, inclusive face ao seu desprendimento e caráter benigno em relação às demais pessoas.

Também sabia que ao fim de sua jornada teria, após um longo caminho, a presença de um último discípulo com quem deveria compartilhar seu conhecimento, seu amor e sua dedicação.

Nesta longa caminhada de muitos anos, morreram-lhe os pais, os filhos seguiram seus caminhos, suas vidas, seus compromissos e, por fim, sua mulher, após longa e sofrida doença, o deixou, vindo a falecer também.

O discípulo então surgiu em um dia quando, já bem mais velho, caminhava na praia pela manhã, como o fazia sempre desde que ficara só.

O mar estava calmo e derramava suavemente suas águas na areia, enquanto o sol brilhante surgia no horizonte.

Ele o olhou e o reconheceu imediatamente. Era ele, o seu discípulo.

Ambos se reconheceram.

A amizade firmou-se através dos anos; a afinidade e comunhão de interesses tornou-se, com o tempo, cada vez mais profunda e profícua.

O discípulo, neste instante, ao lembrar-se de tudo isto, recordou o que o Mestre lhe havia ensinado, ao mesmo tempo em que uma lágrima de saudade e reconhecimento lhe escorreu pelo rosto.

O Mestre havia partido, deixou esta vida, semeou a boa semente e voltou ao plano espiritual para, quem sabe, em novas caminhadas, deixar em seu rastro, novamente, mais luz e beleza.

A cozinheira

A

Silvia C.P.S. Martinson

Tudo se passou tão rápido, pensou ela.
O tempo, a vida, os fatos, os bons e os maus momentos.
 
E assim pensando, sentou em um banco de praça que naquela época do ano, primavera, estava esplêndida, de um belo colorido. As árvores carregadas novamente de folhas verdes contrastavam com o colorido das flores diversas que haviam sido, há tanto tempo, plantadas e cuidadas nos vários e muitos canteiros ali existentes.
 
Árvores velhas e velhas roseiras carregadas de flores abertas e em botões além do perfume traziam a quem observasse, como ela, agora, uma imensa paz à alma.
 
O banco em que sentava era antigo também, todavia confeccionado em madeira nobre resistia impávido às mudanças e agruras do tempo. 
 
Pessoas apressadas passavam à sua frente. Mulheres bem vestidas, penteadas e maquiadas seguiam, provavelmente, pensou ela, para seus trabalhos, suas ocupações.
 
Recordou ainda que as mulheres agora gozam de mais liberdade e também têm mais acesso à educação do que em seu tempo.
 
Ela houvera querido estudar e ter uma carreira como professora ou talvez até de médica, porém além de ser pobre seus pais tinham uma educação antiga, onde as mulheres somente eram feitas para ser mães, servir ao lar, criar os filhos e serem submissas ao homem, seu marido.
 
Em famílias mais abertas admitia-se à mulher ser professora ou talvez servir a Deus sendo freiras.
 
Uma leve inveja das mulheres de agora assomou momentaneamente sua mente, seu coração.
 
Aos homens que transitavam ali com passos ligeiros rumo à suas obrigações  fizeram-lhe lembrar de seu pai e de seu marido. Sempre ambos tão apressados.
 
Foram bons homens, honestos e dentro de suas capacidades bons cidadãos. Como chefes de família se conduziram relativamente, a seus olhos, bem. Sustentaram a todos com moderação.
 
Seu marido foi um pai carinhoso com seus filhos, proporcionou-lhes acesso à escola e conseguiu com muito esforço os conduzir até a universidade onde ambos se formaram.
Como marido, como homem, sexualmente falando deixou lacunas. Tinha o hábito de olhar e se possível ter relações sexuais com outras mulheres enquanto ela trabalhava como cozinheira em um restaurante para ajudar com seu labor à economia doméstica. 
 
Naquele momento passaram por ela várias crianças acompanhadas de seus pais e que se dirigiam à escola, o que lhe fez recordar de seus amigos de infância até o ponto em que pode estudar, ou seja, o 5º ano primário com então 12 anos de idade quando foi encaminhada pelos progenitores a um restaurante de amigos deles para ser aprendiz de cozinheira. Ali esteve até a pouco tempo, lembrou, por mais de 40 anos quando então se aposentou.
 
Seus amigos de infância seguiram seus caminhos na vida, uns operários, outros administradores, outros ainda médicos, advogados, engenheiros ou simplesmente negociantes.
 
Sentada ali naquele banco, agora com a idade a se  mostrar em sua pele crestada, suas mãos calejadas, as pernas inchadas por tantos anos trabalhando em pé, sem maiores cuidados médicos, olhou pela última vez os fios de cabelos brancos que caíram e se depositaram sobre suas pernas cobertas pelo vestido negro que usava em memória de seu marido que falecera a alguns anos e achando que se vestindo assim sempre seria respeitada por seu estado de viuvez.
 
O vento primaveril soprou levemente conduzindo os cabelos brancos junto com as folhas caídas das árvores, momento este em que a cabeça dela pendeu para frente e ela adormeceu, naquele banco de praça,  para sempre.

Eu te proponho

E

Antonia Nery Vanti (Vyrena)

Vivermos o agora, eu te proponho.
O futuro é um tempo incerto,
O presente está sempre por perto,
Do passado ja morreu o sonho.

Enquanto houver tempo, te proponho,
Sejamos apaixonados amantes.
O hoje será bem melhor, eu suponho
Do que será amanhã ou do que foi antes.

Sejamos confiantes, eu te proponho,
Enquanto aguardamos o porvir
Vivamos no presente nosso sonho!

Deixemos que morra o passado,
Não pensemos no que há de vir.
Só o presente deve ser abraçado!