CategoríaProsa

Memórias

M

Silvia C.S.P. Martinson

O velho caminhava pela rua como todos os dias o fazia. No entanto, nesta manhã de um céu azul e sol radiante, quando as pessoas que como ele, ali andavam também, lhe pareciam mais alegres e felizes.

Ele não havia percebido que enquanto andava as memórias de tempos idos lhe assomavam ininterruptamente. Eram lembranças de seu tempo de criança, quando inocente e feliz vivia na casa de seus pais. Casa esta que se localizava no bairro mais afastado daquela cidade.

O bonde, a condução para as pessoas que não tinham carros – e eram poucas as que os possuíam – ia até uns quilômetros antes de sua casa. O resto do caminho tinha que ser feito a pé, caminhando seja com sol, dias sombrios ou com chuva e frio.

Esta situação com o crescimento e expansão da cidade com os anos mudou.

Hoje a população ali cresceu, bem como os meios de locomoção e comunicação se tornaram acessíveis à maioria das pessoas.
Também com o progresso e isto o velho observava, vieram alguns inconvenientes, tais como: a marginalidade de pessoas e a criminalidade aumentaram, não permitindo, como antes, às pessoas andarem despreocupadamente pelas ruas.

E, assim, andando a este homem ressomaram novas lembranças como aquelas de que quando ainda era criança.

Lembrou-se da casa em que morava e que tinha um terreno que ia de uma quadra à outra, com quase 100 metros de extensão.
Terreno este donde se encontravam já adultas e grandes árvores de frutas, tais como: pereiras de diversas qualidades, caqueiros cujas frutas além de muito doces também quando seu sumo caia em uma roupa a qual se não era imediatamente lavada esta se manteria manchada por uma cor ferruginosa pelo resto de sua existência.

Havia ali, ainda, parreiras de uvas brancas, rosas e negras com as quais, no verão, sua mãe preparava sucos e saborosas sobremesas.
Mamoneiros, laranjeiras, limoeiros e vergamoteiras ali também davam seus frutos.
Recordou que as verduras e as flores mais diversas eram plantadas e cuidadas por seus pais.

Outra lembrança foi do galinheiro que havia ao fundo do quintal onde eram criadas galinhas e um galo cantador, o qual lhe despertava todas as manhãs. Dali seu pai colhia todos os dias vários ovos que eram acondicionados em uma cesta de palha na cozinha para futuro consumo.

Não havia àquela época chuveiros elétricos e a água do banho era aquecida, no frio inverno de então, em um grande fogão à lenha onde em enormes panelas e chaleira era deixada até o ponto de ebulição.

Havia em sua casa, ele lembrou-se, de grandes bacias de alumínio, onde cabiam ele e seu irmão e que serviam unicamente de banheira e que se encontravam penduradas em ganchos no banheiro da casa, que, sem dúvida, sua mãe mantinha impecavelmente sempre limpo.
A casa era simples, de madeira, todavia acolhedora. Era composta de dois quartos, uma sala de entrada, outra maior de estar, a cozinha ampla e o banheiro.

Fora da casa ainda tinha um galpão grande onde estavam guardadas uma geladeira de gelo comprado ao vendedor que ali passava semanalmente, como também o leite adquirido ao homem chamado leiteiro, que, todos os dia ia vendê-lo no portão de sua casa. Afora tudo isso havia ali guardadas as ferramentas de seu pai.

E assim caminhando lembrou ainda do vendedor de peixes que passava todos os dias, bem cedo, frente a sua casa gritando:
- Peixe Pin!!! Peixe Pintado! Bagres e Dourados! Peixe fresquinho! Comprem para comer ao domingo!!!

E com estas lembranças assomando a sua mente o velho voltou, caminhando lentamente, ao final daquela bela manhã à sua casa, pensando talvez se ao dia seguinte novas memórias lhe voltariam a acontecer, trazendo-lhe a alegria de recordar tempos e fatos tão agradáveis que lhe haviam sucedido.
Pensou ainda:
A vida é longa e inesperada, o que se passará amanhã tampouco o sabemos, portanto, vou ser feliz agora...

Laverca

L

Silvia C.S.P. Martinson

Todos os dias ela ia a sua janela e cantava uma música para ele acordar, isto pela manhã. Ao entardecer, quando a noite se aproximava fazia o mesmo, a fim de que o dormir dele fosse suave e cheio de encantamento.
 
Ela tinha belíssima voz e a cada dia trazia consigo novas maneiras e nuances em seu cantar.
 
Eles se conheciam de há muito e muito tempo.
Em verdade, por muitos anos ela inexoravelmente fazia a mesma coisa todos os dias.
 
Ele a salvara de morrer e desde então esta lhe tinha enorme carinho e profundo amor. Da mesma forma ele a queria e respeitava.
 
Assim que foram os dois crescendo, cada um a sua maneira, amadurecendo e desfrutando da vida e da beleza de viver cada dia com novas experiências.
 
Ele tornou-se um homem bonito, culto e elegante, sempre cortejado por belas mulheres.
 
Ela o observava e admirava enquanto este a acolhia e protegia sempre de todos os males.
Um dia, então, ele viajou para bem longe e ficou por um longo tempo afastado.
 
Ela, no entanto, em sua simplicidade e inocência, não deixou sequer um dia de visitar sua janela como sempre o fazia.
 
Enfim, depois de algum tempo, ele retornou e ela feliz foi cantar na janela pela manhã esperando vê-lo, como sempre ocorrera, todavia teve uma surpresa.
 
Estava ele acompanhado de uma bonita mulher que ao vê-la cantar sorriu e fechou a janela. Esta não apreciava o seu canto.
 
Ela, então, enciumada arrancou de seu corpo, com o bico, uma pena colorida que ali depositou como lembrança.
Subiu aos céus, voou ao alto, muito alto e nunca mais voltou.
 
O homem sentindo a ausência de Laverca o canto e a melodia que lhe embalava os sonhos e das tristezas do mundo as escondia, ele simplesmente, sem consolo, chorou até morrer.
 
As manhãs e as tardes ficaram silenciosas, tristes e vazias sem o belo canto de Laverca ou Cotovia.

Dá pra acreditar?

D

Alvaro de Almeida Leão

 

Decisão de um torneio estadual de futebol de campo. Time local, Tamoio Futebol Clube, jogando pelo empate contra o time visitante, Tupi Futebol Clube. Juiz e bandeirinhas contratados de fora do Estado. Casa cheia. Vinte e três mil espectadores, dos quais três mil torcedores do time visitante.

Aproximando-se o final da partida, e o jogo estando com o placar de zero a zero, é mais que normal ouvir-se da torcida local: ...Acabou!... Acabou!... É campeão!... É campeão!... É campeão!...

Aos quarenta e quatro minutos da etapa final, surge uma desgraça. E que desgraça!... O juiz marca um pênalti contra o time da casa. Faltava só o atacante passar pelo último zagueiro, quando, na pequena área, este lhe dá um chutão que o levanta com bola e tudo. Pênalti claro, legítimo. Aceitar, é que são elas. Por vezes o interesse próprio não permite o adequado uso da razão.

Poucos alegres da vida e a grande maioria pedindo pra morrer. No campo, safanões, ofensas de parte a parte, cobra o pênalti, não cobra, o empurra-empurra, o esconder da bola e jogo, que é bom, nada. Os bandeirinhas, solidários com a decisão do juiz, protegem-no. O policiamento matreiramente fazendo “vistas grossas” quando das ações de interesse do time local.

O presidente do time da casa vai até o juiz, já desabotoando acintosamente sua camisa de maneira que aparecesse o seu “trintão e oitão” de cabo prateado e o “ofende feio” aos gritos:

- Ó seu cagalhão bunda mole, quando eu morava no chiqueiro da tua cidade, a qualquer hora do dia ou da noite, era só querer e eu transava com a tua mãe.

O juiz nem tomou conhecimento. Colocação, mais ou menos idêntica, já ouvira em outras ocasiões e sabia sua intenção: causar-lhe reações que o deixariam em maus lençóis.
O delegado da cidade, já dentro do campo, vai logo avisando, melhor dizendo, coagindo:

-Ó vagabundo bagunceiro, não tinha nada que marcar pênalti faltando pouco tempo pra terminar a peleja. Te manca!... Muda tua decisão enquanto é tempo!...

-Aqui, cometeu-se pênalti, a minha obrigação é marcá-lo. Doa a quem doer.

-Conheces o ditado “quem semeia vento, colhe tempestade”? Criaste um problemão, pois que o resolvas. Sai dessa se fores bem macho.
O juiz e os auxiliares num só objetivo: cumprir, e bem, suas obrigações.

Transcorridos “longos e intermináveis” dez minutos de paralisação, o centroavante do time visitante, (seu capitão e batedor oficial de pênalti), vai até o goleiro do time local:
Pois é goleiro, se nenhuma das partes ceder, não chegaremos a lugar algum.
É, não tá fácil...
-Tenho, lá na minha cidade, logo mais, um casamento e de maneira alguma gostaria de me atrasar, pois sou o padrinho dos noivos.
-E o que tenho a ver com isso?
-Particularmente, acho... Acho não, tenho certeza de que houve rigor na marcação do pênalti. Então, gostaria de te fazer uma proposta.
-Proposta?!... Pensa bem o que vais propor. Poderás te dar mal. Muito mal mesmo!
-Calma!... Calma!... Proponho que convenças o capitão do teu time a permitir que o pênalti seja cobrado. Aí então...
-Teu time ganhará o campeonato.
-Não, não é nada disso. Aí então, eu que sou o batedor do pênalti, vou chutar pra fora, resgatando, assim, a injustiça cometida.
-Tu garantes?
Pode crer. Bem sabes que somos homens de palavra.
-Dá pra acreditar?
-Certamente. Nem fiques nervoso na hora. Vou bater a uns dois metros por cima da goleira.

O goleiro mal podia acreditar no que estava ouvindo. A situação mudou, assim como da noite para o dia. Foi falar com o capitão do seu time:
-Capitão, preciso falar contigo, algo importante. Vamos até ali, a conversa é reservada.
-“Tá”, mas que sejas breve. Preciso estar com o nosso time, levantando o seu moral.

O centroavante do outro time, que é o batedor oficial de pênalti, há poucos instantes me prometeu que se deixarmos o pênalti ser cobrado, irá chutá-lo pra fora. Ele tem um compromisso logo mais “apadrinhar” um casamento. Precisa voltar o quanto antes.
-Mas, o que é que tu achas? Sentiste firmeza?
-É um risco, é verdade, mas penso que será como ele está propondo. É pagar pra ver... Ele até ressaltou o fato de sermos homens de palavra.
-Acho que é uma... Porém, fico pensando, o pai, há pouco, foi tão veemente defendendo nossos interesses junto ao juiz. Eu contrariá-lo agora não vai ser uma boa.
-O fato de, além de capitão do nosso time, seres o filho do delegado, pesa, é verdade, porém acho que a conquista do título para o nosso time está em primeiro lugar.
-Também acho. Então, goleiro, vou falar com o juiz.
-Não seria melhor comunicar primeiro ao presidente do nosso time?
-Não. Quanto menos pessoas envolvidas, melhor.
-Bem lembrado.

O capitão do time local vai ao encontro do juiz:

-Seu juiz, eu, capitão do meu time, decido que o pênalti, que acho não ocorreu coisíssima nenhuma, seja cobrado. Erraste feio ao marcá-lo, mas, como não queres voltar atrás, paciência... Tua carreira de juiz já era. Erro técnico desse porte é inconcebível.

O presidente do time local, ao ouvir tamanho disparate, vai à loucura. Possesso parte para cima do desaforado capitão do seu time e só não foi “à via de fato” porque o seguraram.

A torcida local atônita presencia o presidente do clube pedir briga com o seu capitão.

O delegado, após refazer-se da surpresa, foi falar com o seu filho:

-Que fizeste, meu filho?!... Estás louco?!... Tens real noção da responsabilidade que estás assumindo?

-Tenho, pai. Sei o que estou fazendo. Não vai haver erro.

Os jogadores do time local, indignados com tão infame decisão. O presidente do time local, de tanta raiva, está totalmente sem ação. O delegado é a personificação do desânimo.
A torcida local, ao ver os jogadores e o juiz dirigindo-se para a goleira do seu time, sente que o pênalti vai ser batido. Era só o que faltava!... Não, essa não!...

Frente a frente, o centroavante do time visitante – ciente de seu dever – e o goleiro do time local – tranquilo, pra ele promessa é promessa –.

Finalmente, o juiz autoriza a cobrança. O centroavante enche o pé com um potente chute no canto esquerdo da goleira e, ao ver a bola estufar a rede, corre “a mil” em direção ao seu vestiário.

O goleiro do time local, sem que alguém entendesse o motivo, inicia uma perseguição ao “tratante safado” para tirar o seu couro vivo.

Ao mesmo tempo em que o presidente do time local, de revólver em punho, se põe à procura do “desgranido” capitão de seu time. Este, que não é bobo, está se mandando em direção à saída do estádio. O delegado, ao perceber o perigo de vida que ronda seu filho, o protege, interpondo-se entre os dois. Nessa hora, a figura do pai sobrepõe-se à do delegado.
Em súplica, o delegado roga ao presidente do time local:

-Homem de Deus, não atira no meu filho! Já não basta tudo de ruim que está acontecendo?
Não fosse essa heróica atitude do delegado, o “bicho iria pegar feio”.

A torcida local, que pedira pra morrer, está sendo devidamente atendida.

O time visitante, “na dele”, sem aceitar provocações, vibrara com o gol e já procedera à substituição do seu centroavante. Aguarda o reinício da partida.

O time local, sem condições de toda ordem, não retorna. Então, o juiz encerra a partida e proclama na súmula o Tupi como vencedor, pelo placar de um a zero.

À noite, a festa de “casamento”, na sede do Tupi. O centroavante goleador irradia felicidade, e bota felicidade nisso! A noiva – a fiel torcida do Tupi – e o noivo – o título de campeão do torneio – todos nós sabemos, serão felizes para sempre.

Un pardal quase humano

U

Pedro Rivera Jaro

Traduzido para o português por Silvia Cristina Preysler.

No que conhecemos como o Corredor Verde, que era uma antiga linha de trem, existem uma série de lojas que minha esposa e eu frequentamos habitualmente para as compras diárias de alimentos. Uma delas se chama Montepinos.
 
Em um de seus dois estabelecimentos, montepinos possui um mercadinho, onde há uma peixaria, uma tabacaria, um açougue e uma quitanda.
 
No outro local, situado bem em frente, atravessando a rua, há uma cafeteria que, em parte, abriga um forno de padaria, com sua seção de pães e confeitaria.
 
Outro dia, fui à padaria comprar pão, a pedido da minha esposa e, ao abrir a porta de vidro, observei como por cima do meu ombro, entrou voando uma fêmea de pardal e pousou à minha frente, sobre a borda de uma prateleira.
 
Distingo entre fêmea e macho porque o macho carrega em suas penas o que chamamos de gravata, que é uma mancha escura na garganta e no peito; a fêmea não tem essa marca, sendo totalmente cinza, assim como no restante de suas penas.
 
Aquele animalzinho desceu ao chão e bicava migalhas de pão e restos de comida que, suponho, caíam dos lanches dos clientes da cafeteria. Tentei me aproximar dela, mas, com curtos voos e pulinhos, não me deixou.
Comprei meu pão e me aproximei da caixa, que me conhece e se chama Eva, e comentei sobre o ocorrido. Ela me respondeu que já havia notado o pássaro e que ele vinha entrando desde a época da pandemia, quando estivemos confinados em nossas casas. Sem encontrar comida na rua, o pardal entrava para buscar dentro do local. Mas o que mais chamou minha atenção foi o que Eva me contou: que, quando o passarinho tinha filhotes, entrava com eles para buscar alimento para dar-lhes de comer. Também me disse que, se conseguisse pegá-lo, o colocaria no forno, porque, logicamente, ele suja tudo com seus dejetos.
 
Pensemos que ela é responsável por limpar o local. Porém, o animalzinho é suficientemente esperto para não deixar ninguém colocá-lo nas mãos.
 
Quando terminou sua busca por alimento, esperou que alguém abrisse novamente a porta e saiu para a rua. Em minha modesta opinião, acredito que um animalzinho que demonstra tamanha inteligência para sobreviver às dificuldades da vida, mesmo não sendo humano, merece admiração e respeito.

O sul de Madrid nos anos 50

O

Pedro Rivera Jaro

Traduzido ao português por Silvia Cristina Preissler

 

Naqueles anos, o que hoje é conhecido como Rua de San Fortunato era chamado de Bairro de San José e pertencia ao Distrito de Arganzuela-Villaverde. Vivíamos de maneira muito diferente da atual. Hoje, meu bairro possui metrô, várias linhas de ônibus, belos parques, ruas asfaltadas com calçadas amplas e bem cuidadas, hospital e ambulatório médico. Naquela época, a rua era de terra; quando chovia e passavam carroças ou veículos motorizados, que eram muito escassos, formavam-se grandes lamaçais que sujavam nossos calçados e roupas.

Meu avô Pedro, o senhor Gonzalo, o Tio Panta, Paco e, em geral, os antigos vizinhos da época colocaram lajes de granito, provenientes das demolições da Madrid do pós-guerra, como se fossem calçadas. Assim, podíamos andar ao menos por ali sem pisar na lama. Meu tio Faustino, que viveu lá até se casar e mudar-se para a rua Marcelo Usera, referia-se à nossa vizinhança como se fosse a Sibéria.

Também não havia iluminação pública noturna na rua, mas meu pai instalou uma lâmpada coberta, acima do batente da porta, que acendíamos toda vez que precisávamos sair à noite para fazer algum recado.

O sistema de esgoto chegou quando a fábrica de papelão, Cartonajes Font y Masach, o instalou desde a sua fábrica, perto da estrada de Andaluzia, até o deságue no rio Manzanares, que havia sido transformado em um rio morto devido aos despejos que acabaram matando os peixes que, quando crianças, pescávamos ali. As tubulações de resíduos da fábrica possuíam, a cada cinquenta metros, bocas de esgoto com tampas de concreto. Quando os canos entupiam, água azul ou vermelha emergia da boca antes do bloqueio, dependendo do que estava sendo produzido naquele dia. Essas águas coloridas tingiam toda a rua, incluindo os depósitos de entulhos localizados no caminho de Perales até o rio.

A água para consumo, higiene pessoal e lavagem de roupas era coletada em uma fonte pública. Usávamos potes e botijas de barro, baldes e bacias metálicas, até que, com a invenção dos plásticos, esses recipientes passaram a ser feitos desse material, que pesava menos e, caso encostasse em nossas pernas, não causava ferimentos.

No início dos anos 60, meu pai comprou uma mangueira de borracha que cobria a distância de cem metros entre nossa casa e a fonte pública. À noite, quando ninguém mais ia buscar água na fonte, enchíamos todos os recipientes que tínhamos nos pátios e, por vários dias, não precisávamos mais ir até lá.

Na metade dos anos 60, conseguimos conectar uma tomada de água na tubulação ampliada pelo Canal De Isabel II, e nunca mais precisávamos ir à fonte buscar água.

Além disso, para regar as plantas, usávamos a água do poço que meu avô Pedro havia cavado no pátio, ao lado do tanque onde lavávamos roupas sujas.

Falando das casas onde morávamos, eram térreas e não tinham aquecimento, como quase todas as casas têm hoje. Normalmente, havia apenas um cômodo onde toda a família passava a maior parte do tempo. Esse espaço geralmente era a cozinha, que possuía um fogareiro. Acendíamos o fogo com jornais velhos e gravetos, aos quais, após entrarem em combustão, adicionávamos algumas pás de carvão mineral ou antracito. Abríamos a entrada de ar para avivar as chamas e, quando já estavam bem fortes, quase a fechávamos por completo, economizando assim carvão. Meu pai encomendou ao serralheiro Alfredo uma proteção de malha metálica retangular com dois ganchos para fixá-la em barras embutidas na parede, prevenindo que o fogareiro caísse sobre nós.

Minha mãe deu outra utilidade àquela malha protetora: descobriu que as roupas molhadas, que não secavam durante os dias chuvosos, secavam rapidamente quando penduradas ali perto do fogareiro.

Ao nos preparar para dormir, sabendo que os lençóis estavam congelados, aquecíamos pequenas mantas de feltro branco na malha protetora e nos enrolávamos nelas antes de nos deitar. Depois, nos cobriam com outras mantas até o nariz.

Pela manhã, ao nos levantar, usávamos urinóis brancos com bordas azuis ou vermelhas, dependendo do modelo. Depois de nos limparmos, levávamos a urina ao pátio para descartá-la no esgoto e enxaguávamos os urinóis com água do poço.

A higiene pessoal era feita em uma bacia de cerâmica branca, onde usávamos água fria e sabão, esfregando nosso corpo com buchas de esparto. Quando meu pai, anos depois, instalou água corrente e construiu um banheiro completo em casa, sentimos como se tivéssemos entrado no paraíso. As crianças de hoje não sabem a sorte que têm de viver nesta época cheia de comodidades.

Outro dia, contarei como caminhávamos por ruas enlameadas até a escola, como éramos tratados pelos professores e sobre os serviços prestados diretamente em nossas casas, como pelo carteiro, os vendedores de telas, o botijeiro, o colono, o consertador de guarda-chuvas, o vendedor de mel, de melões, o afiador, entre outros.

Mas hoje o relato ficaria muito extenso. Espero que tenham gostado. Um abraço carinhoso, queridos leitores.

Pensando melhor

P

Alvaro de Almeida Leão

O Duda, goleirão titular de um time de futebol de campo, está na gaveta, isto e: comprado pelo adversário, para fazer com que seu time perca o jogo. Com essa atitude espera sanar problema financeiro, resultado da sua condição de perdulário.

Para que tudo dê certo, é só aguardar um chute em direção ao seu gol, muito bem-vindo, por sinal, e fazer de conta que tentou defender.
O jogo auspicia-se sem favorito. O time do Duda tem no seu desempenho o seu ponto alto. No time adversário, sobressai-se a dupla de ataque Cosme e Damião.

Duda programa-se para a partida de futebol. Tomar frango não está nos seus planos, de forma alguma. A fronteira entre um frango e a gaveta é muito tênue.

Começa a partida. Primeiro tempo totalmente morno. Sem chance de gol para os dois times. Paciência. Fazer o quê? Não deu, não deu.
No intervalo do jogo, o Duda está pensando: o que estará acontecendo com a dupla Cosme e Damião? São jogadores tão eficientes. Hoje não estão jogando nada.

O Damião, por sinal, é um grande amigo do Duda. Foram criados no mesmo bairro. Companheiros de jogo de bolita, de taco e de memoráveis peladas.

Segundo tempo igual ao primeiro.

Faltando dois minutos para terminar a partida surge a dupla de atacantes com sensacionais tabelinhas. Duda sentiu que chegara seu esperado momento. Só faltava passar pelo último zagueiro. Barbada dois contra um. É fazer o gol e comemorar.

Duda posiciona-se parado com os braços estendidos pro alto e o corpo curvado para a direita, sinalizando, assim, que será para aquele lado que irá se jogar.

A bola ora com um atacante, ora com outro, e o Duda, que deveria, por esse fato, gingar, acompanhando a trajetória da bola, de um lado para o outro, não o fazia.

Ao driblar o último zagueiro, Cosme dá um passe para Damião, que vem mais atrás, e este ao divisar o boqueirão do lado direito da goleira, bem a sua feição, bate com o peito do pé a bola, só que com impulsão e força maiores que as necessárias.

O Duda encena que o lance o pegou no contrapé e o levou a cair.

Embora com a direção correta, a bola, ao ganhar uma altura proporcional ao grande impulso com que foi levantada, passa a uns dois metros acima do travessão.

Duda se desespera, pede pra morrer. Brabo da vida, cobra do Damião:
- Pô, Damião, era só bater na bola com um leve toque! Como podes perder um gol desses?
- Como não perder se eu e o Cosme estamos na gaveta para não fazer gols. Essa nossa última jogada, combinamos para alegrar um pouco a nossa torcida.
- O quê?!... Também na gaveta? Não é possível. Me ferrei. Deu para a minha bolinha. Fui.
Após o jogo pensando melhor, Duda, até que achou bom, bom não, achou excelente que não tenha participado, embora não lhe faltasse vontade, da barbaridade a que se propôs.

É imprescindível não se estar sujeito a julgamentos morais por deslizes praticados.

Extranha

E

Silvia C.S.P. Martinson

 

Quando caminhou sozinha e por seus passos lentos, todavia seguros empreendeu novos rumos na busca de objetivos mais palpáveis, evidenciou sem dúvida a grande capacidade que tinha de criar e ser reconhecida.

Por muitos anos viveu insegura e dependente da opinião de amigos e parentes, consequência de uma educação limitadora e decadente.
Limitadora porque não lhe permitia ser livre em seu meio para expressar seus sentimentos, desejos e dúvidas.

Assim que, hoje livre de tabus e restrições ela conversa com nós outros, seus amigos, e nos conta, gentilmente, uma história antiga.
Tudo se passou em um fim de ano, quase noite de Natal.

Ela estava em casa de sua mãe, pois que ainda era muito jovem e não trabalhava em nenhuma empresa.

Seus afazeres se restringiam a ajudar a mãe nas lides caseiras, tal como: varrer o pátio, aguar as plantas, sua mãe as tinha e muitas rosas, eram as suas preferidas, as possuía sem seu jardim, de múltiplas cores todas elas.

Ajudava também a por ordem na casa todos os dias. Quando ao levantar-se era sua obrigação, antes de ir para a escola, deixar sua cama arrumada e seu quarto sem ordem sem roupas ou sapatos atirados ao solo, como costumava fazê-lo antes de dormir à noite.

Sua mãe era costureira. Confeccionava vestidos de alta qualidade para as mulheres da sociedade local.

Este trabalho de costurar à época de fim de ano, quando os festejos se acumulam juntamente com bailes e formaturas, sejam em universidades ou escolas militares, lhe proporcionava excelentes ganhos financeiros, tal a qualidade do serviço que prestava e à clientela que acorria à ela.

Então contou-nos que em um Natal assim sua mãe, assoberbada, tampouco pode sair para comprar os tradicionais presentes de natalinos para os filhos.

As crianças com a ajuda do pai, que também trabalhava fora, no comércio, em uma noite próxima ao Natal enfeitaram a árvore, um pinheiro, com o presépio e todos os seus componentes, as bolas coloridas de vidro e as luzes próprias usadas para iluminar e alegrar o lar, como faziam todos os anos.

A mãe por sua vez, no dia de Natal, passou a entregar às clientes os seus vestidos de festa e a receber o pagamento do trabalho por ela executado.

Ela conseguiu ainda, pela tarde, neste dia de Natal assar em seu fogão a lenha o peru que de antemão já haviam comprado.

Era hábito em sua casa na noite de Natal a família reunir-se e jantar um peru recheado e saladas e doces diversos, estes que a mãe durante o mês ia fazendo e acondicionando em potes de vidro apropriados à tal mister.

No entanto não haviam presentes a serem entregues pelo “Papai Noel” e os filhos entristecidos aprontaram-se para a ceia.

Quando as 12 horas da noite já estavam a jantar eis que toca a campainha da casa.
Era uma mulher muito rica atualmente, por ser dona de uma casa onde se realizavam grandes festas da sociedade local.

No entanto se sabia ter sido ela uma mulher muito pobre em sua infância e não ter tido a felicidade de no Natal receber qualquer presente ou brinquedo para lhe alegrar a vida.
Pois esta senhora que havia conhecido a miséria e sabedora das dificuldades daquela mãe se apiedou das crianças e chegou na casa com os braços carregados de brinquedos.
Grandes ursos de pele, brinquedos diversos e perfumes para os pais mais ainda tecidos para que confeccionassem as roupas deles.

Dentre tantas clientes ricas, aquela foi a única que se lembrou de uma família pobre e trabalhadora.

Nossa amiga, com lágrimas nos olhos, nos contou esta história.

Emocionada disse que passados tanto tempo ainda se lembra daquela senhora e que todos os anos, na noite de Natal, eleva seu pensamento a Deus em agradecimento pela vida boa que tem hoje junto a seus queridos, mas, também pede, em oração, que proteja e abençoe aquela mulher, seja lá onde ela se encontre.

Sobreviveu

S

Silvia C.S.P. Martinson

 
Ele caminhava lentamente pela estrada deixando na areia, marcadas, as suas pisadas.
Nada o atingia e tampouco lhe importava as opiniões dos raros passantes que, de esguelha, lhe observavam. Ia absorto em seus pensamentos, envolto em suas lembranças. Recordava os dias e anos passados quando então dia a dia lutava para sobreviver e elevar-se acima do caos que se formara.
 
Suas roupas velhas e surradas eram somente o que lhe sobrara de material. O resto... Pouco, agora, lhe chamava a atenção.
 
Não se esquecera dos anos, dos meses e das datas. Agora era Natal e ele sozinho somente caminhava.
As lembranças assomaram à sua mente e fizeram com que retornasse a tempos já tão idos.
 
Lembrou-se de quando era criança e da árvore de Natal que seu pai cuidadosamente escolhia e comprava todos os anos para que ele e seu filho, juntos, cada dia, nela colocassem o enfeites até que na noite natalina punham a última bola colorida. Quando o presépio já estava montado, a estrela dourada então era fixada ao alto, na ponta do pinheiro.
 
No presépio além do estábulo de palha onde ficava o menino Jesus na manjedoura, cercado por sua família e alguns animais domésticos, os campos circundantes eram povoados de bichos variados, de pastores e dos reis magos que, lentamente, se aproximavam cada dia mais daquele local a fim de prestar homenagens ao recém nascido. Estas figuras feitas de gesso e coloridas eram diariamente movimentadas por este homem enquanto menino. Havia ali também um pedaço de espelho que servia para se parecer a um lago onde patos nadavam tranquilamente.
 
Recordou ainda da noite de Natal onde previamente a mãe havia preparado a ceia. Ceia esta que era consumida e apreciada por um tempo bastante longo até chegar às 12 horas da noite, quando o então relógio antigo da sala batia as doze badaladas.
 
Na época ele supostamente não entendia porque seu pai ou a sua mãe se ausentavam da mesa por alguns instantes, inexplicavelmente.
 
Terminada a ceia todos se aproximavam à sala contígua para junto a árvore prestar, através de uma oração, agradecimento ao menino Jesus por sua vinda ao mundo para ensinar e exemplificar aos homens o poder da oração, da bondade, do amor e do perdão.
 
Feita a oração ele então notava que a árvores estava cercada de presentes que luziam em seus pacotes de papel colorido. Era uma hora de extrema felicidade constatar que as coisas, algumas, com que havia sonhado o ano inteiro, estavam ali depositadas e seriam suas de agora em diante.
 
Este homem enquanto caminhava solitário por aquela estrada poeirenta recordou-se porque ali se encontrava em um estado tão deprimente. Seu país e o mundo estavam em guerras contínuas.
Os homens haviam se esquecido do que significava o amor e o perdão. Haviam mortos e casas abandonadas pelos caminhos.
 
Lembrou-se de que sua casa fora destruída pelas bombas e a sua família, mulher e filhos haviam sido mortos pelos soldados inimigos.
Quanta dor, quanta desolação. Ele então ao dar-se conta de tudo isto uma grande dor lhe apunhalou a alma.
 
E ali, naquele momento, sentou-se ao chão, na terra poeirenta, colocou as mãos no rosto e enfim, em sua absoluta e total solidão, naquele mundo tão cruel e insano, copiosamente, simplesmente chorou.

Arnaldo é o cara

A

Alvaro de Almeida Leão

Dos doze comerciantes de uma galeria comercial, num bairro da cidade, só o Arnaldo - 63 anos bem vividos, boa saúde, abnegado trabalhador, família bem estruturada, esposa, filhos e netos - não vai bem de negócios, por mais que se esforce.

Logo após sua aposentadoria como industrial calçadista de médio porte, Arnaldo inaugurou seu tão sonhado escritório de representações com sede própria. Adivinhe quantos negócios, em três meses, Arnaldo conseguiu fechar, num parâmetro de até vinte.

Pensou? Já tem sua resposta? Sim? Pois acho que errou. Outra chance. Tem um novo palpite? Sim? Qual? Desculpe, acho que ainda não acertou. Última oportunidade. Quantos? Ainda suponho errado.

Então, só resta dizer quantos. Posso fazê-lo? Então declaro, para os devidos fins, que o Arnaldo, em três meses de trabalho, não realizou um único negócio.

Sendo assim, de que vive o Arnaldo?

De cinco apartamentos, três casas, quatro lojas num shopping center e nove vagas de garagens, todos relativamente bem alugados.

Duas aposentadorias: a do regime geral de previdência social e outra por anterior contrato de adesão particular. Aplicações em espécie em carteiras de investimentos bancários e ações em empresas de sociedades anônimas.

Daí, com esse perfil, é natural supor-se: proprietário de imóveis de uso habitual ou ocasional na cidade, serra e mar.

Bem financeiramente, porém não realizado por sua firma não deslanchar. Arnaldo sabia das dificuldades iniciais quando fundou a sua atual empresa por não ter um produto que servisse de carro-chefe nas vendas. Porém, num futuro próximo, tem certeza de que irá reverter tal situação, está fechando um contrato de representação com exclusividade para todo o estado, de um produto inédito, de uso essencial e com ampla divulgação em toda a mídia.

Cada colega comerciante nutre pelo Arnaldo sentimento de tristeza e orgulho. Tristeza por ele não efetivar os negócios que tanto almeja e orgulho por seu apurado senso de responsabilidade.

Alguns comerciantes, mais íntimos, sentem-se à vontade para tirar sarro, no bom sentido, com todo respeito, quanto ao comércio do Arnaldo, através de questionamentos: sobre negócios versus lucratividades, como atender sozinho tantos clientes, quando abrirá uma filial, notícias sobre as futuras merecida férias, entre outros do gênero.

Ao Arnaldo, não lhe falta tenacidade na dedicação do dever. Admirador da pontualidade britânica cumpre religiosamente seu horário de trabalho, embora sua clientela teime em não se apresentar.

Numa tarde, ao sentir uma forte dor de cabeça, Arnaldo decide por algo que jamais fizera: ausentar-se do trabalho, em horário comercial. Porém era preciso comprar um remédio na farmácia bem próxima. Zeloso, por natureza, elabora um cartaz no computador e afixa na porta da sua loja com os seguintes dizeres:

DESCULPEM A AUSÊNCIA,
VOLTO EM CINCO MINUTOS

Arnaldo capricha em cumprir o que prometera. Um minuto antes de esgotar o tempo, volta e depara-se com o cartaz agora ostentando anotações escritas, através de canetas ou esferográficas, tendo por autores parte de seus colegas empresários, em letras de fôrma ou de imprensa. Agora lê-se:

DESCULPEM A AUSÊNCIA,
VOLTO EM CINCO MINUTOS

Pra quê? Não estás cansado por hoje? – Eu não voltaria. – Sem essa de pressa, não irás fazer nada mesmo. – E as férias já estão programadas? A vida não é só trabalho. – Dois clientes estiveram aqui. Voltarão amanhã, como sem falta. – Logo que saíste o telefone não parou de tocar – Ausentar-se não foi uma boa. Foi fatal.

Ao ler o texto modificado, Arnaldo um tanto quanto contrariado, é consolado pelos colegas comerciantes, que afirmam ser apenas uma brincadeira, que ele não levasse a mal. Naquele resto de tarde, tapinhas nas costas e sinceras palavras de incentivo: vai fundo, és exemplo para todos nós, parabéns pela perseverança.
Sempre firme na batalha, um mês depois o futuro próximo do Arnaldo chegou. E nem precisava ser na medida do exagero (muito bem-vindo) com que pede passagem.
Contrato firmado, as excelentes vendas do novo produto fizeram com que surgissem solicitações de indústrias consagradas no sentido de que Arnaldo as representasse. A clientela atual também é teimosa: teima em não parar de crescer.

Com o progresso, surge o dilema de onde o cliente estacionar o carro, (a galeria não dispõe de garagens). A solução foi Arnaldo adquirir o excelente terreno - 40m x 120m - na esquina da quadra de sua empresa (importante nessa hora uma reserva financeira) e transformá-lo num amplo estacionamento. Eta terrenão bom, para, quem sabe, um futuro prédio em que se constituirá o novo endereço do Arnaldo.

O tempo de progredir, jamais perde a validade. – Mas, bah. Que bonito! Alguém já disse isso? Se não, disse-o agora.

A sala própria da empresa do Arnaldo, de boa dimensão se adequou à necessidade da contratação de quatro funcionários. A empresa cresce a cada dia. O fluxo de clientes circulando na galeria comercial aumentou em cem por cento, resultando num maior faturamento de todos os demais comerciantes que, por isso, estão rindo à toa.

Todo esse sucesso repercute não só entre os comerciantes da galeria comercial, mas, por extensão, para o bairro como um todo. A dedicação do Arnaldo foi merecidamente recompensada.

No Natal, todos os comerciantes da galeria e seus familiares estão reunidos para comemorarem a magna data com o Arnaldo, num clube especialmente aberto para o festivo evento. Arnaldo é, a todo instante acarinhado por seus dedicados familiares, amigos e clientes. Comes e bebes dos mais apetitosos. Alegria geral e irrestrita.

Em dado momento, os onze colegas comerciantes anunciam que irão brindar com champanhe, conceitos, previamente escolhidos, cujas primeiras letras de cada um deles, se concebidas juntinhas, (comprovem, por favor), propiciarão o surgimento de uma frase, com que pretendem homenagear o amigo Arnaldo.

Munidos de suas taças com o precioso líquido, erguem-nas e conclamam brindes:

Ao Amor, à Razão, à Natureza, à Ação, ao Labor, ao Dever, à Ordem.
à Ética, à Oferta.
à Coragem, à Amizade, à Remissão, ao Arrojo.

Resultando, com que todos os presentes, em uníssona voz, de pé, emocionados, brindam à saúde do querido e amado Arnaldo e de toda sua honrada família.

O mercadinho do povoado de San Fermín

O

Pedro Rivera Jaro

Traduzido para o português por Silvia Cristina Preissler
 
No ano de 1955, quando eu tinha 5 anos, como eu era o filho mais velho dos meus pais, minha mãe me encarregava de fazer pequenas compras de alimentos nas lojas próximas de casa, como o armazém do senhor Herrero, o açougue da Praça, a quitanda e frutaria da senhora Matilde, e a loja de miudezas da Nieves, entre outras.
 
Ela escrevia o que precisava em um pedaço de papel, e eu entregava nas lojas, onde me davam o que estava anotado. Assim foi como, desde muito pequeno, aprendi a fazer compras distinguindo a qualidade dos produtos.
 
A partir de 1961, já com 11 anos, lembro-me que pegava minha bicicleta e o cesto de compras e ia até o mercadinho de frutas e verduras, que haviam construído com paredes e telhados de madeira. Ele era formado por duas fileiras longas de barracas, uma em frente à outra, além de uma fileira mais curta na entrada principal, que fechava as fileiras mais longas. Lembro-me que, nessa fileira da entrada, ficava a loja do senhor Paco Osuna.

Minha mãe me dava 25 pesetas e dizia:
- “Filho, não tenho mais dinheiro.”
- “E o que você precisa, mamãe?”, eu perguntava.
- “Precisamos de frutas, feijão verde, batatas. O que você achar que dá.”
 
Na frutaria da senhora Matilde, que ficava ao lado de casa, um quilo de bananas custava 13 pesetas. Em comparação, no mercadinho, tudo saía bem mais barato, sem perder a qualidade. No cesto que eu prendia no suporte traseiro da bicicleta, cabia bastante peso de frutas. Eu atravessava a Colônia de San Fermín em minha bicicleta até o Povoado de mesmo nome. Chegando no Mercadinho, dava uma volta completa em seu interior, observando as mercadorias e os preços dos diversos produtos.
Na segunda volta, ia comprando nos pontos de venda o que tinha selecionado na primeira. Por exemplo:
2 quilos e meio de laranjas por 5 pesetas;
2 quilos e meio de maçãs por 5 pesetas;
2 quilos de batatas por 4 pesetas;
1 quilo de feijão verde sem fios por 3 pesetas;
1 quilo de bananas das Canárias por 8 pesetas.
Totalizavam exatamente as 25 pesetas que minha mãe havia me dado. Algumas vezes, se sobrava uma peseta, minha mãe me deixava ficar com ela.
 
Em 1964, já com 14 anos, eu sentia vergonha se as meninas da minha idade me vissem com o cesto de compras. Naquela época, era malvisto que homens fizessem compras, pois isso era considerado tarefa das mulheres. Hoje em dia, isso já não é assim, mas naquela época era. Por isso, eu pedia para minha mãe mandar minha irmã Maribel, que já tinha 12 anos. Mas minha mãe se recusava, dizendo que os vendedores enganavam minha irmã, enquanto comigo isso não acontecia, pois eu sabia muito bem o que estava comprando.
 
Sempre acreditei que ela exagerava.

Síguenos