Silvia C.S.P. Martinson
Esta data era sempre muito esperada por todos os amigos.
Vitor era o mais velho de dois irmãos e também o mais ativo e desembaraçado dos dois meninos.
O que vamos contar se passou quando ele estava a completar 10 anos de idade.
Os pais de Vitor eram amigos de meus pais, que, também, eram vizinhos e amigos da avó materna dele.
Eles viviam em uma bela casa grande e confortável em um bairro próximo ao em que nós morávamos.
A educação que recebíamos à época difere totalmente da que é dada às crianças hoje, pelo menos em nossas famílias.
Devia-se ao chegar à casa dos anfitriões, da festa, bem vestidos e muito recomendados à educadamente cumprimentar os pais do aniversariante e a este sem dúvida.
Não deveríamos sentar à mesa sem sermos convidados desde que autorizados por nossos pais.
Eu sempre fui muito alta e aparentava, consequentemente, mais idade do que tinha em realidade. Nesta época com 10 anos eu tinha a aparência de ter 15 ou 16 .
A dona da casa, mãe de Vitor, era exímia cozinheira e acima de tudo costumava fazer doces inigualáveis, tanto em sabor quanto em beleza.
Lembro ainda que a mesa da sala de jantar estava coberta de doces e salgados que apeteciam prova-los, afora que ao centro dela se encontrava um enorme bolo de aniversário belissimamente decorado, que aos nossos olhos de crianças era uma verdadeira tentação.
Os adultos foram acomodados em outro setor da casa onde lhes foram servidos bebidas e alguns petiscos antes da mesa dedicada à comida dos mais velhos, o que se daria mais tarde.
As crianças eram servidas mais cedo junto ao aniversariante, para que cantassem o Parabéns a Você e ele apagasse as velinhas que então acesas no bolo estavam em número exato dos anos que cumpria Vitor.
E foi o que aconteceu.
A mãe de Vitor chamou para compor a mesa todas as crianças convidadas, quando chegou a minha vez ela simplesmente me disse que como eu era já uma jovem deveria aguardar para sentar-me a mesa com os adultos.
Assim que deu-me uma cadeira para sentar-me e ali ficar esperando. As crianças alegremente sentaram-se não antes de saudar o aniversariante e após o que “atacaram”, este é o termo correto, literalmente as guloseimas que ali estavam postas.
O tempo passou e eu estava cada vez com mais vontade de comer, porém a minha educação à época não permitia, sob hipótese nenhuma, atrever-me a solicitar alguma coisa.
Mais tarde os adultos foram convidados a acercar-se da mesa que estava novamente coberta das mais diferentes e apetitosas guloseimas.
Todavia algo para mim inesperado se passou: a dona da casa se esqueceu do que me havia dito e não me convidou a passar à mesa dos adultos.
Então, discretamente, acerquei-me a minha mãe que já estava comendo e bebendo e lhe pedi um pedaço do lindo bolo que ela comia.
Ela simplesmente respondeu-me olhando-me seriamente:
- Já não comestes?
E sem esperar a minha resposta disse:
- Vai sentar-te com as crianças que ali é o teu lugar e não importunes a nós ou a dona da casa com a tua falta de educação!
Retirei-me como me havia mandado com muita vergonha e muita fome também.
Voltamos para nossa casa já noite cerrada e eu com raiva só chorava ao que minha mãe àquela hora não quis saber o porquê.
Fui dormir com fome.
Quando no dia seguinte lhe contei o que se passara ela me proibiu contar à mãe de Vitor ou a ele o que ocorrera.
Até hoje guardo na memória aquela linda mesa coberta de doces com as guloseimas que me apeteciam e apetecem tanto.