
A casa caiu



O Aguinaldo, agricultor, solteiro, 23 anos, excelente formação moral, sem saber ler nem escrever, vindo do interior para tentar melhores condições de vida no litoral, conseguiu emprego na cidade grande, por mais modesta que esta fosse, pois era muito valente e em contrapartida, educado, correto e inteligente. Soube, por intermédio de outros também em maus lençóis, que, se soubesse ler e escrever, teria a porta aberta na maioria do prestígio encaminha para empresas pessoas e até de funcionar.
Aguinaldo não pensou duas vezes: frente a frente com o responsável da Organização Não Governamental, solicita-lhe ajuda. Casualmente, no outro dia haveria uma festa nas dependências da Organização, onde o mesmo necessitaria de mais pessoas para arrumação do salão de eventos. Aguinaldo se prontifica para o serviço, mesmo que de graça, pois deseja pedir mais, aceita o convite e imediatamente começa a colocar a mão na massa. Em menos tempo que o esperado, Aguinaldo está à servir mesa de um dos convidados que havia sido solicitado a estava impecavelmente concluído. O seu jeito atencioso, polido, com o serviço do moço, e a simpatia de seu sorriso alegre, atraiu a atenção dele, que a mão a ser de agricultor, que dificilmente conseguiria emprego na cidade, estava ali implorando, implorando a equipe de auxiliares de serviços gerais, procurando, justamente, a mesma, o emprego.
Obsequioso, educado, comunicativo, Aguinaldo é bem quisto por todos. Há, porém, uma restrição à sua continuidade no emprego: legalmente, o registro de alguns telefones, e a escrita, a que sempre lhe falta, o registro de alguns detalhes, e o Aguinaldo não consegue anotá-los, por ser analfabeto.
O coordenador, zela por algum tempo a resolução de dispensá-lo do cargo, do funcionário que mais serve, e que mais resistir às pressões. Muito a contragosto, dá a triste notícia ao Aguinaldo, propondo-lhe o desligamento como emprego oportunamente.
Aguinaldo fica muito pesaroso. Não vislumbra outro emprego à vista, e a saída daquele lugar, quanto lhe doía, e a que fez jus. Despede-se e sai nervoso.
No final da festa, a equipe de pessoas de cafezinho esperam. Procura na imediações um local onde possa satisfazer sua necessidade momentânea de acalmar-se.
Não encontra. Por toda a vizinhança observa que, num rápido comércio, existe uma grande procura e boa venda de cafezinhos. Esse fato faz com que lhe surgisse a ideia de montar um pequeno negócio. Pensou, pensou, e trata de parecer-lhe um futuro promissor.
Mas, para que possa pôr em que pudesse iniciar suas atividades. Conhecido de todos, facilmente o encontra, com alguns amigos, um dos poucos que lhe restou. Com o colega, alugam uma máquina de fazer café, com boas condições, um balcão, dois bancos de madeiras, duas mesas, três bancos pequenos, uma geladeira, dois pequenos balões, açucareiros, guardanapos e demais acessórios de que necessitaria. E aí, parte para o seu novo desafio, pensando para o início de seu pequeno negócio.
Aguinaldo arruma o seu balcão com a freguesia assídua. Expande-se a ponto de poder abrir em outros bairros novas sucursais.
Revista sistematicamente seus lucros. Começa a adquirir os ingredientes que lhe abriram novas ideias. Enriquece o seu cardápio: pães doces e salgados, bolos, sanduíches, tortas salgadas e doces, cucas especiais, salgadinhos e outros. Depois, vem a inovação: o famoso Pão com capricho que fazia gostas!
A sua dedicação ao trabalho que diariamente encontra tempo suficiente para percorrer, com satisfação, seus balcões e suas sucursais. Começa a se expandir para shopping centers, verificando seu perfeito funcionamento.
Em vez de aplicar todo o capital, prefere a compra de um pequeno hotel para se expandir seu negócio para ser maior. O Cafezinho do Aguinaldo já é famoso até fora do Estado.
Agradecido pelo fato de tudo ter mudado em sua vida, na semana seguinte, viaja à cidade, a pedido do negócio de cafezinho. Aguinaldo decide fundar uma indústria de pães e bolos. O nome da sua indústria: Padaria e Confeitaria do Café do Aguinaldo.
Aguinaldo determina a que se candidate a um emprestimo, e a fim de obter o capital necessário para a próxima fase comercial de expansão, por um banco estatal. Aguinaldo acata a ideia e dirige-se ao banco.
É recebido de braços abertos pelo gerente: – Qual o valor do empréstimo pretendido? – Venho solicitar um empréstimo. Estou em intenções de comprar a rede de hotéis.
– Mas que prazer, Aguinaldo. Não sabia. Honra a sua visita a nossa empresa. Temos muito prazer em servi-lo. O seu nome já é uma grata surpresa. Vamos assinar o contrato do quanto solicitar. Seu crédito conosco é ilimitado.
Dito isso, o gerente lhe alcança um contrato de abertura de crédito para que ele possa dar sua assinatura. Aguinaldo, nesse instante, sente-se muito envergonhado e humildemente responde:
– Sou infelizmente não posso assinar. Por enquanto, ainda sou analfabeto.
Nesse instante, o gerente havia anelado o imagine o que o senhor seria se soubesse ler.
Ele era o empregado de sala, perfeitamente útil, aos auxiliares de serviços gerais, numa Organização Não Governamental.

Simone, 27 anos, com curso superior em Hotelaria, trabalha na rede de hotéis da família. Namora, às escondidas, Sérgio, por culpa do pai dela, que não aceita ninguém que não seja de seu mesmo nível social.
Sérgio, 29 anos, trabalhador, honesto, de origem simples, é enfermeiro autônomo, egresso de escolas e universidades públicas.
Sérgio e Simone não gostam nem um pouco dessa situação. Amam-se muito e não merecem outro tratamento senão aplausos e consideração.
O pai de Simone, seu Horácio, viúvo, 72 anos, é avarento, ranzinza e intratável. Acha que as famílias não deveriam se misturar entre classes sociais. Para ele, o certo é rico com rico, remediado com remediado, pobre com pobre, miserável com miserável. Seu sonho é casar a filha com alguém de uma das famílias ricas da sociedade local.
Horácio também é pai de Carlos Augusto, solteiro, 26 anos, aeronauta, que trabalha como piloto de aviões de pequeno porte.
Em época de férias, Simone e Sérgio pretendem viajar juntos e combinam o dia e horário em que comunicarão seu namoro a Horácio.
Os familiares de Sérgio gostam muito de Simone e desejam êxito ao casal.
Numa tardinha, Sérgio, com a boa aparência de sempre, um pouco nervoso, porém muito feliz, chega à casa de Simone. É recebido pela namorada.
-Entra, bem!
-Oi, meu amor! Guarda minha valise? Teu pai está?
-Está. Vamos entrar.
-Sim. E podes deixar, sei muito bem o que desejo e mereço.
Sérgio é conduzido até a biblioteca, onde Horácio está assistindo ao noticiário. Simone anuncia:
-Pai, este é o Sérgio. Ele quer falar com o senhor. Vou deixá-los à vontade. Com licença.
-Sim. Mas quem é o senhor e o que quer de mim?
-Seu Horácio, muito prazer em conhecê-lo. Sou Sérgio e tenho um assunto importante para tratar com o senhor.
-Assunto importante logo no primeiro encontro? Estranho. Mas vamos lá, desembucha. Que seja rápido e rasteiro, tenho mais o que fazer.
-Acontece que, com o maior prazer, sou namorado da Simone e...
-É mesmo?! Ela sabe disso?
-Não baixemos o nível da nossa conversa. Sem ironias, por favor.
-Há quanto tempo isso acontece? Minha filha não me falou nada.
-Já faz seis meses.
-De que família tu és?
-Sou, com orgulho, de uma família de origem pobre, honesta, trabalhadora e importante, responsável pelos valores morais e sociais que formaram meu caráter.
-Mas vamos a outros assuntos: teu currículo escolar, trabalho e ganho.
-Sou formado em Enfermagem, com extensão em licenciatura plena. Exerço minha profissão como autônomo. Meu ganho mensal varia.
-Fala sobre tua posição social.
-Ainda não a dimensionei, por considerá-la menor, em importância, do que a plena realização do dever cumprido.
-Acontece que, para mim, isso é tudo. A filha é minha e sou eu quem decide seu futuro.
-Desculpe, seu Horácio, mas acho que não é bem assim.
Não é bem assim uma ova! Quer que eu diga uma coisa curta e certa?
-Não me venha com despropósitos. Eu o estou respeitando e exijo o mesmo tratamento.
-Pois olha... seu nem sei quem, sou totalmente contra esse nefasto namoro. Entendeu bem? Contra! Vai-te daqui e esquece este endereço.
-Eu não sei onde estou que não o mando para aquele lugar.
-Vai tu, tipinho de uma figa!
Sérgio começa a se retirar da casa, antes que perca as estribeiras. Encontra-se com sua amada, que, nervosa, indaga sobre o resultado do encontro com o pai.
-Então, meu amor, tudo legal para nós dois?
-Tudo legal nada! Parece até que não conheces teu pai! O que tu me disseste ao me receberes?
-Entra, bem.
-Pois foi o que aconteceu, entrei bem.
-Que desagradável.
-Bem sabes que não foi por minha culpa.
-Lógico que não. Mas o que conversaram?
-Conversamos sobre...
Diálogos interrompidos por um pedido de socorro de Horácio:
-Simone, minha filha, me acuda! Estou muito mal. Tudo está escuro. Acabou de passar na televisão: um avião da empresa de Carlos Augusto caiu. Não há sobreviventes!
-Simone, depressa, minha valise! Vamos até a biblioteca.
-Sim, Sérgio, aqui está. Oh, Deus, não permita que meu pai morra!
Na biblioteca, encontram Horácio sentado, com o corpo reclinado para trás, tentando fazer massagens no coração.
-Simone, telefona agora mesmo para os médicos do teu pai e para a emergência da SAMU.
Sérgio, ao constatar suor excessivo, palidez, dificuldade para respirar e ao obter respostas afirmativas às perguntas sobre dor no peito, formigamento no braço esquerdo, dor no estômago e náuseas, conclui ser, quase certo, um infarto do miocárdio.
-Simone, irei prestar os primeiros socorros ao teu pai, tudo bem?
-Tudo bem. Deus os ilumine!
Sérgio deita Horácio no sofá, afrouxa suas roupas e inicia massagens cardíacas e palavras de incentivo à vida. Após uma pequena melhora, Horácio piora, sofrendo duas paradas cardíacas. Sérgio realiza reanimação com massagens e respiração boca a boca, estabilizando-o.
O telefone de Simone toca. Ela atende:
-Alô?
-Oi, mana! Tudo bem? Soubeste do acidente com um avião da nossa empresa? Não estava nele. Irei voar só amanhã de manhã. Avisa o pai. Ele está bem? Posso falar com ele?
Simone corre para contar ao pai:
-Pai, é o Carlos Augusto! Ele está vivo! Graças a Deus!
Horácio, de mãos postas, olha para o alto e lágrimas de alegria rolam sobre seu rosto.
Chega a SAMU. O atendimento de Sérgio é elogiado. Os paramédicos medicam o paciente e o preparam para o hospital. Um paramédico pergunta:
-Quem são os familiares?
-Eu sou Simone, filha de Horácio. Este é Sérgio, meu namorado.
Outro paramédico intervém:
-Seu Horácio, sabia que nasceu hoje de novo? Se não fosse Sérgio estar aqui bem na hora, não sei se estaríamos proseando.
Horácio pede para falar com Sérgio:
-Sérgio, estive no time dos quase mortos. Sou um renascido. Minha “caixa de entrada” do meu modo de ser zerou. A partir de agora, só armazenarei o bem. Prometo!
-Muito bem, seu Horácio. Folgo em sabê-lo.
-Agora, tenho um pedido solene: aceita este “recém-nascido” como teu sogro?
-Não poderia ouvir melhor pedido. É claro que aceito!
-Ótimo! Chama Simone, quero chorar abraçado à minha família... à minha nova família.
Ao calor dos abraços e beijos, a vontade que logo chegue o amanhã, quando então, com toda certeza, os anseios da querida filha Simone e do Sergio estarão integralmente aos seus alcances. E isso é tudo, é divino.

Decisão de um torneio estadual de futebol de campo. Time local, Tamoio Futebol Clube, jogando pelo empate contra o time visitante, Tupi Futebol Clube. Juiz e bandeirinhas contratados de fora do Estado. Casa cheia. Vinte e três mil espectadores, dos quais três mil torcedores do time visitante.
Aproximando-se o final da partida, e o jogo estando com o placar de zero a zero, é mais que normal ouvir-se da torcida local: ...Acabou!... Acabou!... É campeão!... É campeão!... É campeão!...
Aos quarenta e quatro minutos da etapa final, surge uma desgraça. E que desgraça!... O juiz marca um pênalti contra o time da casa. Faltava só o atacante passar pelo último zagueiro, quando, na pequena área, este lhe dá um chutão que o levanta com bola e tudo. Pênalti claro, legítimo. Aceitar, é que são elas. Por vezes o interesse próprio não permite o adequado uso da razão.
Poucos alegres da vida e a grande maioria pedindo pra morrer. No campo, safanões, ofensas de parte a parte, cobra o pênalti, não cobra, o empurra-empurra, o esconder da bola e jogo, que é bom, nada. Os bandeirinhas, solidários com a decisão do juiz, protegem-no. O policiamento matreiramente fazendo “vistas grossas” quando das ações de interesse do time local.
O presidente do time da casa vai até o juiz, já desabotoando acintosamente sua camisa de maneira que aparecesse o seu “trintão e oitão” de cabo prateado e o “ofende feio” aos gritos:
- Ó seu cagalhão bunda mole, quando eu morava no chiqueiro da tua cidade, a qualquer hora do dia ou da noite, era só querer e eu transava com a tua mãe.
O juiz nem tomou conhecimento. Colocação, mais ou menos idêntica, já ouvira em outras ocasiões e sabia sua intenção: causar-lhe reações que o deixariam em maus lençóis.
O delegado da cidade, já dentro do campo, vai logo avisando, melhor dizendo, coagindo:
-Ó vagabundo bagunceiro, não tinha nada que marcar pênalti faltando pouco tempo pra terminar a peleja. Te manca!... Muda tua decisão enquanto é tempo!...
-Aqui, cometeu-se pênalti, a minha obrigação é marcá-lo. Doa a quem doer.
-Conheces o ditado “quem semeia vento, colhe tempestade”? Criaste um problemão, pois que o resolvas. Sai dessa se fores bem macho.
O juiz e os auxiliares num só objetivo: cumprir, e bem, suas obrigações.
Transcorridos “longos e intermináveis” dez minutos de paralisação, o centroavante do time visitante, (seu capitão e batedor oficial de pênalti), vai até o goleiro do time local:
Pois é goleiro, se nenhuma das partes ceder, não chegaremos a lugar algum.
É, não tá fácil...
-Tenho, lá na minha cidade, logo mais, um casamento e de maneira alguma gostaria de me atrasar, pois sou o padrinho dos noivos.
-E o que tenho a ver com isso?
-Particularmente, acho... Acho não, tenho certeza de que houve rigor na marcação do pênalti. Então, gostaria de te fazer uma proposta.
-Proposta?!... Pensa bem o que vais propor. Poderás te dar mal. Muito mal mesmo!
-Calma!... Calma!... Proponho que convenças o capitão do teu time a permitir que o pênalti seja cobrado. Aí então...
-Teu time ganhará o campeonato.
-Não, não é nada disso. Aí então, eu que sou o batedor do pênalti, vou chutar pra fora, resgatando, assim, a injustiça cometida.
-Tu garantes?
Pode crer. Bem sabes que somos homens de palavra.
-Dá pra acreditar?
-Certamente. Nem fiques nervoso na hora. Vou bater a uns dois metros por cima da goleira.
O goleiro mal podia acreditar no que estava ouvindo. A situação mudou, assim como da noite para o dia. Foi falar com o capitão do seu time:
-Capitão, preciso falar contigo, algo importante. Vamos até ali, a conversa é reservada.
-“Tá”, mas que sejas breve. Preciso estar com o nosso time, levantando o seu moral.
O centroavante do outro time, que é o batedor oficial de pênalti, há poucos instantes me prometeu que se deixarmos o pênalti ser cobrado, irá chutá-lo pra fora. Ele tem um compromisso logo mais “apadrinhar” um casamento. Precisa voltar o quanto antes.
-Mas, o que é que tu achas? Sentiste firmeza?
-É um risco, é verdade, mas penso que será como ele está propondo. É pagar pra ver... Ele até ressaltou o fato de sermos homens de palavra.
-Acho que é uma... Porém, fico pensando, o pai, há pouco, foi tão veemente defendendo nossos interesses junto ao juiz. Eu contrariá-lo agora não vai ser uma boa.
-O fato de, além de capitão do nosso time, seres o filho do delegado, pesa, é verdade, porém acho que a conquista do título para o nosso time está em primeiro lugar.
-Também acho. Então, goleiro, vou falar com o juiz.
-Não seria melhor comunicar primeiro ao presidente do nosso time?
-Não. Quanto menos pessoas envolvidas, melhor.
-Bem lembrado.
O capitão do time local vai ao encontro do juiz:
-Seu juiz, eu, capitão do meu time, decido que o pênalti, que acho não ocorreu coisíssima nenhuma, seja cobrado. Erraste feio ao marcá-lo, mas, como não queres voltar atrás, paciência... Tua carreira de juiz já era. Erro técnico desse porte é inconcebível.
O presidente do time local, ao ouvir tamanho disparate, vai à loucura. Possesso parte para cima do desaforado capitão do seu time e só não foi “à via de fato” porque o seguraram.
A torcida local atônita presencia o presidente do clube pedir briga com o seu capitão.
O delegado, após refazer-se da surpresa, foi falar com o seu filho:
-Que fizeste, meu filho?!... Estás louco?!... Tens real noção da responsabilidade que estás assumindo?
-Tenho, pai. Sei o que estou fazendo. Não vai haver erro.
Os jogadores do time local, indignados com tão infame decisão. O presidente do time local, de tanta raiva, está totalmente sem ação. O delegado é a personificação do desânimo.
A torcida local, ao ver os jogadores e o juiz dirigindo-se para a goleira do seu time, sente que o pênalti vai ser batido. Era só o que faltava!... Não, essa não!...
Frente a frente, o centroavante do time visitante – ciente de seu dever – e o goleiro do time local – tranquilo, pra ele promessa é promessa –.
Finalmente, o juiz autoriza a cobrança. O centroavante enche o pé com um potente chute no canto esquerdo da goleira e, ao ver a bola estufar a rede, corre “a mil” em direção ao seu vestiário.
O goleiro do time local, sem que alguém entendesse o motivo, inicia uma perseguição ao “tratante safado” para tirar o seu couro vivo.
Ao mesmo tempo em que o presidente do time local, de revólver em punho, se põe à procura do “desgranido” capitão de seu time. Este, que não é bobo, está se mandando em direção à saída do estádio. O delegado, ao perceber o perigo de vida que ronda seu filho, o protege, interpondo-se entre os dois. Nessa hora, a figura do pai sobrepõe-se à do delegado.
Em súplica, o delegado roga ao presidente do time local:
-Homem de Deus, não atira no meu filho! Já não basta tudo de ruim que está acontecendo?
Não fosse essa heróica atitude do delegado, o “bicho iria pegar feio”.
A torcida local, que pedira pra morrer, está sendo devidamente atendida.
O time visitante, “na dele”, sem aceitar provocações, vibrara com o gol e já procedera à substituição do seu centroavante. Aguarda o reinício da partida.
O time local, sem condições de toda ordem, não retorna. Então, o juiz encerra a partida e proclama na súmula o Tupi como vencedor, pelo placar de um a zero.
À noite, a festa de “casamento”, na sede do Tupi. O centroavante goleador irradia felicidade, e bota felicidade nisso! A noiva – a fiel torcida do Tupi – e o noivo – o título de campeão do torneio – todos nós sabemos, serão felizes para sempre.

O Duda, goleirão titular de um time de futebol de campo, está na gaveta, isto e: comprado pelo adversário, para fazer com que seu time perca o jogo. Com essa atitude espera sanar problema financeiro, resultado da sua condição de perdulário.
Para que tudo dê certo, é só aguardar um chute em direção ao seu gol, muito bem-vindo, por sinal, e fazer de conta que tentou defender.
O jogo auspicia-se sem favorito. O time do Duda tem no seu desempenho o seu ponto alto. No time adversário, sobressai-se a dupla de ataque Cosme e Damião.
Duda programa-se para a partida de futebol. Tomar frango não está nos seus planos, de forma alguma. A fronteira entre um frango e a gaveta é muito tênue.
Começa a partida. Primeiro tempo totalmente morno. Sem chance de gol para os dois times. Paciência. Fazer o quê? Não deu, não deu.
No intervalo do jogo, o Duda está pensando: o que estará acontecendo com a dupla Cosme e Damião? São jogadores tão eficientes. Hoje não estão jogando nada.
O Damião, por sinal, é um grande amigo do Duda. Foram criados no mesmo bairro. Companheiros de jogo de bolita, de taco e de memoráveis peladas.
Segundo tempo igual ao primeiro.
Faltando dois minutos para terminar a partida surge a dupla de atacantes com sensacionais tabelinhas. Duda sentiu que chegara seu esperado momento. Só faltava passar pelo último zagueiro. Barbada dois contra um. É fazer o gol e comemorar.
Duda posiciona-se parado com os braços estendidos pro alto e o corpo curvado para a direita, sinalizando, assim, que será para aquele lado que irá se jogar.
A bola ora com um atacante, ora com outro, e o Duda, que deveria, por esse fato, gingar, acompanhando a trajetória da bola, de um lado para o outro, não o fazia.
Ao driblar o último zagueiro, Cosme dá um passe para Damião, que vem mais atrás, e este ao divisar o boqueirão do lado direito da goleira, bem a sua feição, bate com o peito do pé a bola, só que com impulsão e força maiores que as necessárias.
O Duda encena que o lance o pegou no contrapé e o levou a cair.
Embora com a direção correta, a bola, ao ganhar uma altura proporcional ao grande impulso com que foi levantada, passa a uns dois metros acima do travessão.
Duda se desespera, pede pra morrer. Brabo da vida, cobra do Damião:
- Pô, Damião, era só bater na bola com um leve toque! Como podes perder um gol desses?
- Como não perder se eu e o Cosme estamos na gaveta para não fazer gols. Essa nossa última jogada, combinamos para alegrar um pouco a nossa torcida.
- O quê?!... Também na gaveta? Não é possível. Me ferrei. Deu para a minha bolinha. Fui.
Após o jogo pensando melhor, Duda, até que achou bom, bom não, achou excelente que não tenha participado, embora não lhe faltasse vontade, da barbaridade a que se propôs.
É imprescindível não se estar sujeito a julgamentos morais por deslizes praticados.

Dos doze comerciantes de uma galeria comercial, num bairro da cidade, só o Arnaldo - 63 anos bem vividos, boa saúde, abnegado trabalhador, família bem estruturada, esposa, filhos e netos - não vai bem de negócios, por mais que se esforce.
Logo após sua aposentadoria como industrial calçadista de médio porte, Arnaldo inaugurou seu tão sonhado escritório de representações com sede própria. Adivinhe quantos negócios, em três meses, Arnaldo conseguiu fechar, num parâmetro de até vinte.
Pensou? Já tem sua resposta? Sim? Pois acho que errou. Outra chance. Tem um novo palpite? Sim? Qual? Desculpe, acho que ainda não acertou. Última oportunidade. Quantos? Ainda suponho errado.
Então, só resta dizer quantos. Posso fazê-lo? Então declaro, para os devidos fins, que o Arnaldo, em três meses de trabalho, não realizou um único negócio.
Sendo assim, de que vive o Arnaldo?
De cinco apartamentos, três casas, quatro lojas num shopping center e nove vagas de garagens, todos relativamente bem alugados.
Duas aposentadorias: a do regime geral de previdência social e outra por anterior contrato de adesão particular. Aplicações em espécie em carteiras de investimentos bancários e ações em empresas de sociedades anônimas.
Daí, com esse perfil, é natural supor-se: proprietário de imóveis de uso habitual ou ocasional na cidade, serra e mar.
Bem financeiramente, porém não realizado por sua firma não deslanchar. Arnaldo sabia das dificuldades iniciais quando fundou a sua atual empresa por não ter um produto que servisse de carro-chefe nas vendas. Porém, num futuro próximo, tem certeza de que irá reverter tal situação, está fechando um contrato de representação com exclusividade para todo o estado, de um produto inédito, de uso essencial e com ampla divulgação em toda a mídia.
Cada colega comerciante nutre pelo Arnaldo sentimento de tristeza e orgulho. Tristeza por ele não efetivar os negócios que tanto almeja e orgulho por seu apurado senso de responsabilidade.
Alguns comerciantes, mais íntimos, sentem-se à vontade para tirar sarro, no bom sentido, com todo respeito, quanto ao comércio do Arnaldo, através de questionamentos: sobre negócios versus lucratividades, como atender sozinho tantos clientes, quando abrirá uma filial, notícias sobre as futuras merecida férias, entre outros do gênero.
Ao Arnaldo, não lhe falta tenacidade na dedicação do dever. Admirador da pontualidade britânica cumpre religiosamente seu horário de trabalho, embora sua clientela teime em não se apresentar.
Numa tarde, ao sentir uma forte dor de cabeça, Arnaldo decide por algo que jamais fizera: ausentar-se do trabalho, em horário comercial. Porém era preciso comprar um remédio na farmácia bem próxima. Zeloso, por natureza, elabora um cartaz no computador e afixa na porta da sua loja com os seguintes dizeres:
DESCULPEM A AUSÊNCIA,
VOLTO EM CINCO MINUTOS
Arnaldo capricha em cumprir o que prometera. Um minuto antes de esgotar o tempo, volta e depara-se com o cartaz agora ostentando anotações escritas, através de canetas ou esferográficas, tendo por autores parte de seus colegas empresários, em letras de fôrma ou de imprensa. Agora lê-se:
DESCULPEM A AUSÊNCIA,
VOLTO EM CINCO MINUTOS
Pra quê? Não estás cansado por hoje? – Eu não voltaria. – Sem essa de pressa, não irás fazer nada mesmo. – E as férias já estão programadas? A vida não é só trabalho. – Dois clientes estiveram aqui. Voltarão amanhã, como sem falta. – Logo que saíste o telefone não parou de tocar – Ausentar-se não foi uma boa. Foi fatal.
Ao ler o texto modificado, Arnaldo um tanto quanto contrariado, é consolado pelos colegas comerciantes, que afirmam ser apenas uma brincadeira, que ele não levasse a mal. Naquele resto de tarde, tapinhas nas costas e sinceras palavras de incentivo: vai fundo, és exemplo para todos nós, parabéns pela perseverança.
Sempre firme na batalha, um mês depois o futuro próximo do Arnaldo chegou. E nem precisava ser na medida do exagero (muito bem-vindo) com que pede passagem.
Contrato firmado, as excelentes vendas do novo produto fizeram com que surgissem solicitações de indústrias consagradas no sentido de que Arnaldo as representasse. A clientela atual também é teimosa: teima em não parar de crescer.
Com o progresso, surge o dilema de onde o cliente estacionar o carro, (a galeria não dispõe de garagens). A solução foi Arnaldo adquirir o excelente terreno - 40m x 120m - na esquina da quadra de sua empresa (importante nessa hora uma reserva financeira) e transformá-lo num amplo estacionamento. Eta terrenão bom, para, quem sabe, um futuro prédio em que se constituirá o novo endereço do Arnaldo.
O tempo de progredir, jamais perde a validade. – Mas, bah. Que bonito! Alguém já disse isso? Se não, disse-o agora.
A sala própria da empresa do Arnaldo, de boa dimensão se adequou à necessidade da contratação de quatro funcionários. A empresa cresce a cada dia. O fluxo de clientes circulando na galeria comercial aumentou em cem por cento, resultando num maior faturamento de todos os demais comerciantes que, por isso, estão rindo à toa.
Todo esse sucesso repercute não só entre os comerciantes da galeria comercial, mas, por extensão, para o bairro como um todo. A dedicação do Arnaldo foi merecidamente recompensada.
No Natal, todos os comerciantes da galeria e seus familiares estão reunidos para comemorarem a magna data com o Arnaldo, num clube especialmente aberto para o festivo evento. Arnaldo é, a todo instante acarinhado por seus dedicados familiares, amigos e clientes. Comes e bebes dos mais apetitosos. Alegria geral e irrestrita.
Em dado momento, os onze colegas comerciantes anunciam que irão brindar com champanhe, conceitos, previamente escolhidos, cujas primeiras letras de cada um deles, se concebidas juntinhas, (comprovem, por favor), propiciarão o surgimento de uma frase, com que pretendem homenagear o amigo Arnaldo.
Munidos de suas taças com o precioso líquido, erguem-nas e conclamam brindes:
Ao Amor, à Razão, à Natureza, à Ação, ao Labor, ao Dever, à Ordem.
à Ética, à Oferta.
à Coragem, à Amizade, à Remissão, ao Arrojo.
Resultando, com que todos os presentes, em uníssona voz, de pé, emocionados, brindam à saúde do querido e amado Arnaldo e de toda sua honrada família.

Assim, foram decorrendo os anos e a vida. Quando perguntam ao nosso casal, como estão, é imediata a orgulhosa e consciente resposta: se melhorar estraga.

Leonardo, o Leo, atualmente com 27 anos, há algum tempo atrás, para concluir seus estudos, aceitou o convite para morar na capital com seu tio Carlos Augusto, que é casado em segundas núpcias com Maria Clara, mãe da Daniela, a Dani, hoje com 25 anos, a quem o tio a tem como uma querida e amada filha.
Leo, desde o início encantou-se com o excelente convívio familiar. Sempre bem nos estudos é formado em Administração de Empresas e é atualmente Gerente de Produção numa Indústria de Móveis Planejados, onde começou como auxiliar de serviços gerais. Dani, funcionária da mesma empresa, chefia o Setor de Controle de Qualidade. Faz faculdade de Arquitetura a noite.
Ano passado, Leo adquiriu um terreno num condomínio em formação, em que há umas vinte casas habitadas, próximo do bairro do tio e ergueu nos fundos um apartamento, onde mora, até construir sua casa principal.
Quanto à vida amorosa do Leo, algumas namoradas, nada de mais sério. Tem a Dani, como sua melhor amiga e confidente. Igual sentimento compartilha a Dani. Numa ocasião em que eles estavam sem namorar alguém, começaram a sair juntos, um dando força ao outro, daí, ao natural, passaram a se verem com outros olhos. Agora, felizes da vida, estão se namorando. Logo o aniversário da Dani, em que o novo casal, idealiza uma comemoração especial.
Algo incomoda o Leo: seguidamente sonha com ações do dia-a-dia envolvendo seus familiares. Sonhos que sempre se realizam.
Nos primeiros sonhos Leo escolhia aqueles de prenúncios desagradáveis e tentava, em vão, junto aos seus familiares, ações contrárias as que poderiam acontecer, não obtendo êxitos.
Saber o futuro, não está com nada, pra ninguém. Muitos até adoeceriam ou morreriam antes mesmo da hora. Para nosso bem, é imprescindível ignoramos o que acontecerá no próximo segundo.
Leo gostaria e muito que não ocorressem mais desses sonhos. Sente-se incomodado a ponto de, numa hora dessas até adoecer. Sendo assim roga aos céus: mais sonhos, não, por favor.
Não obstante esse apelo, ocorreu, faltando dois meses para o aniversário da Dani, o mais preocupante dos sonhos: o de que não haverá comemoração do aniversário da Dani Foi um tiro no pé, Leo simplesmente desmoronou.
Nada disse a Dani, sobre o sonho, apenas questionou sobre a saúde dela, mesmo sabendo boa. Ainda verificou as possibilidades de acidentes quer no trabalho quer em sua casa, tudo normal. Passou a levar e buscar de carro a Dani na Faculdade.
Apesar da realização, até agora, de todos os seus sonhos, a esperança do Leo é a do adágio popular de que toda regra há exceção. Mas, será que há mesmo?!... Tomara, mil vezes tomara.
Sua vida tem sido bem conturbada. Desagradável até. Não há um dia em que não pense, mas por quê isso? Emagrece a olhos vistos. Sente-se tonto, sem apetite e com insônias.
Na sexta-feira à noite, véspera do aniversário da Dani, o Leo esteve na casa da amada, até bem tarde, tratando dos preparativos do aniversário. Dani achou-o muito tenso e nervoso, pensou ser o resultado das últimas semanas de afazeres nos preparativos do aniversário.Despede-se, afirmando que, no outro inesquecível dia, virá se encontrar com ela pelas dez horas, do dia seguinte.
Em casa, Leo, exausto não está conciliando o sono. Pensa quando esses malfadados sonhos irão parar? Quando meu Deus? Aguentar tudo isso não está sendo nada fácil.
Na manhã de tão esperado dia do aniversário a Dani recebe em sua casa um buquê de flores do campo, com uma bela e singela declaração de amor eterno, do amado Leo. Dani é só felicidade.
Passados trinta minutos das dez horas, Leo não aparece e não atende o telefone, então a Dani e seus pais resolvem ir até a casa dele.No condomínio se identificam e transmitem para os funcionários da portaria suas apreensões. Condôminos que se encontravam lá papeando. após caminhadas se oferecem para acompanhá-los, um deles é o médico doutor Aldo. No percurso o doutor Aldo ao passar por sua casa, pega sua valise de trabalho.
Chegam à casa, chamam atenção o chuveiro ligado e em particular a água fluindo pela soleira da porta. Como têm as chaves da casa, abrem-na. O tio e o médico vão na frente. Encontram o Leo caído no banheiro, com um corte e um hematoma na cabeça.
- Oi tio, oi doutor Aldo que bom que vieram-diz o Leo. Caí quando vim tomar banho. Estou sem forças pra me levantar. Como está a aniversariante a minha amada e querida Dani?
Nesse instante mãe e filha em convulsivos choros chegam onde se encontra o Leo, uma se apoiando na outra, a tempo de ouvirem o que o Leo dissera.
- Estou aqui amado meu. Tudo vai passar. Logo estarás bem, se Deus quiser.
Leo é conduzido até o quarto. Doutor Aldo afere seus sinais vitais, administra os primeiros socorros não o permite dormir e o argui com perguntas que exigem raciocínios lógicos. Logo que o Leo melhora aconselha que ele vá para um hospital. Doutor Aldo, faz questão de o leva em seu automóvel, junto seus tios e a Dani.
Mais uma vez a constatação de um sonho que se realiza, não haverá comemoração do aniversário da Dani.
Ainda no hospital, mais um sonho: a promessa de que nunca mais ocorrerão sonhos com familiares, nos moldes de antes e o principal, que fez com que se sentisse um homem plenamente realizado: casará com a Dani e a vida será só felicidade.
Após dez dias de intenso e dedicado tratamento hospitalar, Leo está voltando para casa cercado de todo carinho dos tios e bem abraçadinho com a sua amada Dani. Exultante de gratidão e alegria pela dádiva de amar a Dani hoje e sempre e por toda a eternidade.
Sente-se entrevistado por todas as redes de rádio e televisão de todo o planeta. De certo convites para conferências. Centros científicos interessados no estudo do que, à luz da ciência, poderá ter acontecido. Capas de revistas. Enfim, a autêntica e merecida celebridade.

Ariovaldo, recém chegado a uma pequena cidade do interior, no trago, como sempre, ia passando, outro dia, por uma rua, quando uma pequena multidão dentro de uma casa, lhe chamou atenção. Curioso, indaga da primeira pessoa com quem se depara.
- Oi, qual o motivo desta festiva reúna?
- Festiva não, bem ao contrário. Estamos velando a professora dona Chiquinha, que, infelizmente, morreu.
- O quê?!...A professora dona Chiquinha, morreu. Mas, como? Não pode ser. Me nego a acreditar.
Dito isso, cai no choro com vontade, alto e com elevado sentimento. Chama a atenção de todos, tanto que familiares da falecida, penalizados com a cena, convidam-no para entrar. Este, não se faz de rogado e em instantes, começa a tentar interagir com as demais pessoas. .
Tempo de rigoroso inverno, frio de renguear cusco. Estão sendo franqueados: sanduiches, cafezinhos, conhaque, vinho, quentão e a nossa tradicional cachaça.
Ariovaldo, indagado sobre sua preferência, nem titubeia:
- Longe de mim a intenção de causar incômodo..Mas já que insistem, com todo esse frio, aceito umas cachacinhas, com todo respeito e consideração, numa boa, no capricho.
Assim se depreende, foram servidas seguidas doses da purinha e na medida em que o Ariovaldo as consumia, mais se embriagava causava pertubação..Ante tão insustentável situação, alguém diz ao Ariovaldo, ainda que não seja verdade, que a cachaça acabou. Ao ouvir tão nefasta notícia Ariovaldo desejou ir embora não sem antes se despedir da falecida.
Diante da Dona Chiquinha, aos prantos, desabafa:
-Querida e amada, dona Chiquinha! Como pode ter acontecido uma desgraça dessa com a senhora? Como, meu Deus?! Como?
Abraça-se ao caixão soluçando com tanto vigor que este está preste a se deslocar dos cavaletes.
Algumas pessoas passam a cuidar dos dois; da defunta e do Ariovaldo, para que nenhum venha a cair. O que seria um senhor vexame.
Familiares da dona Chiquinha se revezam em tentar identificar melhor, o inconsolado Ariovaldo e indagavam:
- O senhor, também, é parente de dona Chiquinha?
- Não, eu não sou parente da dona Chiquinha.
- Alguma época foi aluno da dona Chiquinha?
- Não, eu nunca fui aluno da dona Chiquinha.
- Então de certo alguma vez vizinhou com a dona Chiquinha.
- Não eu nunca vizinhei com a dona Chiquinha e pra bem da verdade eu confesso, até então, não conhecia a dona Chiquinha.
- Então, seu Ariovaldo, o senhor não sendo parente da dona Chiquinha, não tendo sido seu aluno ou vizinho e, principalmente, nem sequer a conhecendo,porquê de tanto choro?.
- Por. agora mesmo. um desmancha prazer, está me dizendo que a danada da purinha acabou. Então, sendo assim, só me resta chorar, chorar, e chorar copiosamente.
Foi a gota d’água!. Convidado a retirar-se, Ariovaldo sai seco pra beber mais e mais.
Tal situação, infelizmente é o que acontece, já há algum tempo.com o Ariovaldo, Um dia, quem sabe, uma alma nobre poderá ajudá-lo a sair dessa e que seja o quanto antes.