Álvaro de Almeida Leão
O José, mais conhecido por Zezão pelos 1,90 metros de altura, trabalha como segurança fardado, numa empresa da área de combustível. Quase meia noite, ele está voltando para sua casa. Oi, Mariazinha, meu grande amor. Onde estás? Estou aqui no quarto, querido Zezão. O que é que houve, por que voltaste? Estou com uma enxaqueca daquelas. Peço, por caridade, não acendas a luz, senão vou piorar. Tudo bem. Ao chegar ao trabalho, um colega me propôs trocar o meu turno de hoje com o dele amanhã, motivo de doença na família. A propósito, tomaste algum remédio? O de sempre, porém até agora nada de melhora. Que coisa mais desagradável! É, não é fácil. Só quem sofre de enxaqueca sabe. Querida, vou fazer um lanche e volto em seguidinha. Vai tranquilo. Dez minutinhos depois, Zezão, cheio de amor pra dar, retorna e ouve mais uma vez o pedido de sua esposinha: Zezão, favor, não acendas a luz, senão tua esposinha não irá ficar boazinha. Certíssimo, meu amorzinho. No escuro mesmo, Zezão tira a farda e sem sono algum, ele quer mesmo é conversar com sua amada com reais segundas boas intenções. Que saudades, Mariazinha, só nas minhas folgas é que passamos as noites juntos. Estavas, também, sentindo a minha falta? Lógico que sim. Fiquei muito satisfeita por teres voltado. Legal!... Como é divino amar e ser amado. Bem... Beeem!?... Eu, Mariazinha. Que queres? Podes me fazer um grande favor? Evidente que sim. Vai até a farmácia da esquina e compra um analgésico bem eficaz, pra ver se eu melhoro e durmo um pouco que seja. Tudo bem, Mariazinha, é pra já. Que maridão eu tenho!... Só me dá alegria. Mas, querido Zezão, insisto em te pedir, não acendas a luz, por favor. Atendendo ao pedido da sua esposinha, Zezão põe a farda no escuro mesmo e vai até a farmácia, com toda pressa do mundo, ansioso por satisfazer sua esposa. Já imaginando ela boa e aquela inesquecível noitada. Ao chegar à farmácia, Miguel – seu proprietário – encara o Zezão como se algo que lhe causasse surpresa. Não se contém e, dirigindo-se ao recém-chegado, indaga, com todo respeito: Desculpa eu perguntar, Zezão, não trabalhas mais como segurança de uma empresa de combustível? Claro que trabalho, seu Miguel. Por que a pergunta? Porque estás com a farda da ONG Salvem Nossas Baleias. Como assim? Minha nossa. Acabei de tomar uma senhora bola nas costas. No escuro, a casa caiu. Me ferraram, mas “tem” troco. Ora se tem. Zezão liga do celular para seu advogado. Explica a desagradável situação e solicita urgente seus serviços. Esse, após o acalmar, diz saber bem como agir em casos idênticos, e que logo estará indo ao seu encontro e lembra que a lei existe para isso mesmo, resolver todos os problemas, seja de que ordem forem.