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Fatos

F

Silvia C.S.P. Martinson

Quando no céu de um azul intenso, nesta praça onde estou sentada agora, as nuvens brancas correm livres, todavia não espessas ao ponto de toldar a beleza deste infinito, eu me recordo de fatos que se passaram a tempo, ou ainda mais recentes e que me ocorreram chamar à atenção.
 
Um deles frente ao prédio em que moro.
Todos os dias eu via ali, caminhando com uma jovem um velho senhor. Este homem se fazia acompanhar por esta mulher que com o tempo fiquei sabendo que era sua acompanhante, uma vez que ele tinha quase 100 anos e vivia só.
 
Era só porque apesar de ser rico e morar em um prédio de luxo não tinha mais parentes vivos ou amigos de sua idade.
 
Os conheci na praça onde todos os dias ali eu caminhava para tomar sol e distrair-me um pouco.
 
Ele era essencialmente social e logo entabulava conversa. E assim o fez quando pela primeira vez deles me aproximei.
Gostava de contar de sua história, de seus trabalhos, de sua vida e de seus amores.
Tive a oportunidade, através das diversas vezes em que nos encontramos, de conhecer algumas delas.
 
Todavia o que gostava mais de enfatizar eram os amores (as mulheres) que o haviam apaixonado e fizeram com que sua hombridade, sua masculinidade, fosse reconhecida e enaltecida por elas durante sua vida.
 
E por incrível, apesar de sua idade, ele ainda por sua aparência e fluidez verbal gozava, ainda, de muito atrativo e charme.
 
Penso que em sua juventude e idade madura deve ter tido muitas aventuras, bem como haja destruído a esperança de muitas mulheres de tê-lo como somente seu.
Simplesmente era um galã incorrigível.
 
Senti sua falta na praça após algum tempo e fui me informar o que se passava com ele. Contaram-me que ao completar 100 anos, no dia de seu aniversário havia morrido.
O fez a sua maneira, suave e educada, sem molestar ninguém. Adormeceu para sempre, deixando para trás tantas histórias que eu, egoisticamente, ainda tinha esperanças de conhecê-las.
 
Outra história mais ou menos recente de que tive conhecimento foi a de um homem de nacionalidade argentina que vivia na minha cidade.
 
O que me faz pensar que às vezes a natureza masculina, em seu apelo sexual, se faz mais forte em alguns homens e em outros não, ou que estes últimos, mais hábeis, sabem disfarça-lo muito bem. Pois bem, este argentino se pensava irresistível.
 
Era um tipo baixo, gordo e feio, com traços muito fortes que lembravam os antigos habitantes das terras sul-americanas.
 
Trazia, no entanto, sempre que se aproximava de uma mulher, um grande sorriso que se lhe acompanhava sempre, uma dentição perfeita, não sei até que ponto natural.
 
Eu soube, através de conversas correntes, que em uma noite de festas na cidade ele perambulando pelas ruas viu uma mulher muito bonita que aparentemente encontrava-se sozinha.
 
Aproximou-se dela e lhe lançou seu pensado sorriso supondo que a mesma por ele se encantava. Ledo engano. Ela o ignorou. Ele não satisfeito se aproximou dela e lhe passou a mão carinhosamente pela cintura, como se fora ela sua namorada.
A mulher ante tal atitude lhe rechaçou com veemência, empurrando sua mão para longe de seu corpo. Ele não satisfeito voltou a insistir.
 
O que aconteceu em seguida foi que o marido da senhora se encontrava próximo e ao ver a atitude atrevida do argentino enraiveceu-se, sacou de um revólver que portava e a que tinha direito por ser policial, e desferiu um tiro certeiro nos órgãos genitais do atrevido.
 
Ele sobreviveu.
 
Todavia hoje circula pela cidade com seu sorriso inconfundível e trejeitos com as mãos e o corpo um tanto chamativos, a procurar agora não por mulheres e sim por homens que lhe satisfaçam os apetites uma vez que, depois do tiro, ficou definitivamente inabilitado para ter relações sexuais com mulheres.
 
Quem o conhecia antes hoje lhe tem lástima e lhe dirige algumas palavras, ou simplesmente lhe evita a presença ao cruzar pelas ruas da cidade.
 
Do marido da mulher ofendida tem-se noticia de que pela Justiça foi absolvido e vivem os dois a caminhar pelas ruas, muito felizes e tranquilos.
 

Saulo – O despacho

S

Silvia C.S.P. Martinson

 

Meu nome: Saulo Jardim.
35 anos.
Por opção: alcoólatra e: poeta.
Sou moreno, magro, alto e bonito.

Não fossem minhas roupas andrajosas, seria considerado um bom partido... uma ótima companhia para muita garota solitária.
Culto, bom de prosa e sempre bem informado, haja vista recolher das ruas, por onde vago, todos os jornais e revistas que jogam fora. As leio com sofreguidão e com elas também me cubro.
Assim eu sou.
"As estrelas são meu teto à noite. As letras: minhas cobertas".
Andando pelas ruas à noite nunca passo por postes sem luz.
Também não cruzo na frente de velas acesas e galinhas mortas nas esquinas.
Se assim acontece, dobro a esquina e me benzo em cruz.
Viciei-me no álcool e, por tanto ler e conhecer dos homens, não acato ordens de qualquer "chefete" ou de pseudo-intelectuais.
Peguei minha antiga chefe arrumando suas meias de seda, na altura da virilha, não resisti como sempre, agarrei-a à força.
Ocasionou-me o fato esta cicatriz na cabeça. Levei uma cadeirada certeira.
Minha vida anterior?

  • É melhor não falar dela agora; quem sabe se ainda escrevo um livro e conto tudo, quem sabe...
    Quando ataquei a chefinha, fui despedido. Adorava meu emprego – era jornalista – mil lágrimas chorei.
    Superei tudo, penso, atirando-me na bebida.
    Sentei-me no descaminho da vida, agarrando-me às ruas, vivendo as dores e as alegrias alheias, ensimesmado.

André, velho amigo e companheiro de trabalho de Saulo, vendo fotos antigas, mentalmente conversa consigo mesmo e com um interlocutor a quem narra parte de sua história. É como se estivessem os três, André, Saulo e o interlocutor, sem dúvida este último imaginário também.

Aquele que aparece à direita desta foto velha, quase apagada, é Saulo Jardim.
Aconteceu em um evento para jornalistas em São Paulo, no ano de 1999.
O Saulo foi meu amigo e colega.
Jovem promissor, boa verbosidade, inteligência, argúcia e capacidade crítica. Grande leitor e escritor contundente... quase genial.
Alto, moreno e bonito, destacava-se, como se vê na foto, dos demais por seu charme e bem vestir. Cabelos negros, quase sempre em elegante desalinho.
Seus olhos negros, penetrantes, encaravam profundamente seu interlocutor, quase que o hipnotizando, quando por ele era entrevistado.
Era galanteador inveterado. As mulheres não lhe resistiam.
A medalha que se lhe vê ao peito é uma das homenagens que recebeu como melhor repórter do ano por coberturas nacionais e internacionais – que fez na área política.
No centro da foto encontro-me eu, André, de estatura média, louro e meio gordinho, sempre com a máquina fotográfica pendurada ao pescoço.
Era o fotógrafo acompanhante de Saulo em suas andanças e reportagens pelo mundo, além do que, seu melhor amigo.

A solidão, meu caro Saulo, é como um copo vazio, é o champanhe não sorvido de sonhos sonhados, porque derramado em cálice alheio, é a taça, quebrada, de ilusões partidas,
é a ausência voluntária de amigos, amores, até de inimigos... é chicle, é asfalto que se gruda e não se solta do sapato, único, do desiludido,
é mancha que não sai da roupa encardida,
é como bolero ou tango sonante, penetra n’alma, não aplaca a dor, é como roupa velha, mas preferida, e a cachaça não descartada
volta e meia é sempre tomada, é sempre vestida.

Saulo, por sua vez, em seu abrigo miserável, começa a relembrar sua vida e pensa...

Esta manhã levantei-me, sacudi os papelões e trapos que me cobrem e descobri que estou farto, cansado, desta vida de andarilho mentiroso.
Aliás, estou cansado de mentir, de me enganar, a mim próprio, tentando parecer um andarilho.
Na verdade, o que sou mesmo é mendigo. Pedinte. Carente, quase demente.
Estou farto da cachaça mal servida, adquirida pelo subterfúgio, pela desculpa, da esmola solicitada para o pão.
Estou cansado de ver o mundo girar na ignorância, na má fé, na inoperância e na guerra.
Estou farto de ver drogados, bandidos e prostitutas de todos os gêneros.
Estou injuriado por morar debaixo desta ponte sobre o arroio Dilúvio, do barulho constante dos carros e ônibus, da comiseração dos passantes, da falta de um olhar amigo.
Do que fui, do que sou... em que me transformei?
Cansei de estar cansado, de não ter esperanças, de ser amaldiçoado.
Pensando bem, estou farto, esgotado, é... cansado de mim mesmo!
Há tempos tive um amor.
Engraçado lembrar-me agora...
Na verdade, não sei por que.
Ou sei?
Foi aquela garota que passou por mim e que me fez recordar...
Realmente, ela era especial e eu a amava tal qual era.
Costumava puxar a calcinha toda hora e em qualquer lugar, onde estivesse, para assentá-la melhor, entre as nádegas.
Tinha predileção especial por tanguinhas bem menores que o seu tamanho comportava.
Era gorducha, bem fornida. Ancas largas, vastos seios.
Os amigos achavam-na horrorosa.

Eu, no entanto, cada vez que ela levava a mão à bunda para arrumar a pecinha, subia as paredes excitado e a amava mais ainda.
Paixão louca pela gorducha!
Fui tão injustamente despedido, por razões sexuais. Preconceito puro.
Que mal faria adorar meias de seda?! Muito mais em pernas bonitas?
Apelo, hoje que estou no desterro, às poderosas empresas: façam cursos, contratem psicólogos, a fim de que sejam verificados os traumas de seus funcionários.
Que possam eles trabalhar livremente, com suas taras sob controle!
Que sua capacidade e produtividade não sejam avaliadas pelas suas deficiências emocionais.
"... ao final, de médico e louco, todos nós temos um pouco".

Não é consenso geral?

A cachaça, o milho e a galinha ficaram para trás, restaram no despacho. Puxou o zíper, guardou a “arma”. Emperrou... azar! Cruzou os braços. Acariciou o queixo. Virou; olhou; sorriu e se benzeu. A urina escorria na sarjeta. Molhara tudo. Saulo, em pensamento, exclama e ao mesmo tempo relembra:

- “Muna muna, animunaanimuna, ramaramaramana”. Nosso mantra, nosso código, lembras? Gritou Saulo. Incrível, eu, Saulo Jardim, escrevendo ao meu pai uma carta. Sim, ao Sr. Eduardo Jardim, meu pai. Para quem não sabe, ou melhor, para lembrar-me, é residente e domiciliado no bairro Jardim das Flores, Rua das Rosas nº 15 em Guarapari-SP. Eduardo Jardim, velho, como eu gosto de te chamar assim. Nunca o permitiste. Eis, aqui, uma das nossas grandes diferenças, entre tantas outras... a falta de intimidade. Eu queria tanto te tratar com carinho. Nunca me deixaste. Entendo, querias fazer de mim um homem sério, não um piegas chorão. Só não sabes o quanto isso me fez falta. Não fui ensinado a amar... Os amores que doei foram tão somente manifestações físicas. Nada espirituais. Fizeste de mim um egoísta, mas, mesmo assim, te perdoo. Em minha última e recente conversa com André, pude, através do ser humano que é ele, compreender-te mais. Espero termos, ainda, a oportunidade de nos encontrar para, enfim, liberarmos as emoções contidas, por tantos anos, em nossos corações. Abraço-te, respeitosamente.

Saulo continua a pensar e relembrar dos velhos tempos… É simples como eu gosto, ficar em lusco-fusco como no entardecer. A luz que penetra por entre as cortinas semicerradas faz-me muito bem. A cama em desalinho, os quadros, mal dispostos, tortos, nas paredes descascadas, gris de cor, lembra-me do meu conforto: o não fazer nada. Sinto-me bem assim, ele não é lúgubre como possa parecer, é simplesmente a essência e a representação de minha maneira de ser. Displicente mas atento. Sentado nessa poltrona cambaia leio, em meu quarto imaginário, “O Corvo” de Edgar Allan Poe; mistério, suspense, poesia pura, tal qual a vida. Eis que encerro o último capítulo, a derradeira frase, embevecido. Neste quarto, espaço só meu, inatingível aos demais, agora leio e releio algo que há muito vi escrito por Manoel de Barros: ... “Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas”. Enquanto jornalista, dentre tantas matérias que escrevi, nos mais variados lugares do mundo por onde andei, houve um incidente que me chamou sobremaneira a atenção. Incidente este que me proporcionou o prêmio de melhor jornalista do ano e a André, meu colega e amigo, o de melhor fotógrafo. Aconteceu em Porto Alegre, minha cidade natal, mais precisamente na praça conhecida por Redenção. Dei o título à matéria de: “Árvores – acidente ou negligência”. “Quando nos países considerados civilizados as árvores, que fazem parte de praças e jardins, são supervisionadas e podadas, anualmente, visando não somente o bem-estar mas, principalmente, a segurança dos transeuntes, aqui, no Brasil, especificamente na capital do Rio Grande do Sul, elas são negligenciadas. Esquecidas sim, uma vez que não são vistoriadas por órgão competente”. Evidenciei em meu artigo o absurdo de considerar-se acidente a morte de uma pessoa e as lesões graves causadas em outras pela queda de uma árvore. Fato devidamente narrado por mim e fotografado magistralmente por André. Até hoje lembro com saudade dos bons tempos de reportagem. Ah! Que saudade… suspira Saulo.

- Saulo, um sanduíche? Pergunta André.
- Aceito. André?! Diz Saulo. Reconheceste-me! Como? Indica Saulo.
- Pelo olhar... minto. Assevera André. Há tempos te observo.
- De onde? Pergunta Saulo.
- Recolhendo as revistas que lês. Responde André.
- Novamente. De onde? Saulo repete.
- Do meu lixo. Responde André. Moro perto. Av. João Pessoa. É só cruzar o Arroio Dilúvio.
- Ah! Suspira Saulo.
- Vamos voltar? Saulo? Estás pronto? Pergunta André. Há vagas, novamente...
- Serei capaz? Interroga Saulo.
- Sem pinga, evidentemente. Responde André.
- Já deixei. E a chefa? Pergunta de novo Saulo-- Foi-se. Ama são paulo… responde André.

O trânsito estava caótico naquele momento. Aí se ouve o som das buzinas, do choque, dos vidros quebrados e das latas retorcidas. ... Formou-se o caos. Os amigos dirigiram-se à esquina. Perigo! o sinal acusava: vermelho.

As velas negras e roxas ainda ardiam por sobre o milho, o sangue da cabeça, decepada, do galo e de um papel escrito em letras garrafais: nunca mais.

Saulo pensa: “A gorda amada não mais verei, o câncer a levou só me resta arriscar. daqui eu parto e entrego minha sina”... dará tempo?

O sinal abre, ele corre, desvia-se dos veículos ao mesmo tempo em que sonha com novas reportagens. o som da travada é estridente, horripilante. na calçada em frente, no entanto, ele pula e grita loucamente

- consegui! consegui! consegui!

Moral da história:

É preciso saber-se a hora de cambiar e querê-lo.

Lição de vida

L

Pedro Rivera Jaro

Traduzido ao português por Sílvia C.S.P. Martinson

Eu tinha então 6 anos. Era um dia de sol e quente do mês de maio de 1956. Passavam alguns minutos das 12 do meio dia, quando voltei a casa do colégio e recordo que cheguei esfomeado.

Entrei na cozinha e olhei nas gavetas do armário onde minha mamãe costumava guardar os alimentos, como chouriço, salsichão, marmelo,etc. (então não tínhamos frigorífico) porém não encontrei nada mais que um pacote de papel Kraft com fatias de bacalhau seco e salgado com que minha mãe costumava fazer batas doces cozidas, o que eu não recordei previamente que se punha o bacalhau na água para dessalgar.

Comecei a tirar a pele de algumas fatias e come-las para acalmar o apetite. Após algum tempo comecei a sentir uma sede tremenda e imperiosa de beber. Não tínhamos água corrente do canal de Isabel II em casa e minha mãe tinha que ir buscá-la na fonte pública com cântaros de barro que colocava em uma Cantareira de madeira que tínhamos junto a pia da cozinha. Eu, todavia não tinha as forças necessárias para manejar os cântaros de barro sem risco de quebrá-los, como já me havia ocorrido há muito tempo e que me ocasionara uns tapas.

Somente me sobrava para beber uma garrafa de vidro branco transparente com vinho branco em seu interior, do qual meu pai bebia um copo nas refeições e o que se encontrava habitualmente na janela.

Nem rápido nem devagar subi pela pia até a janela e alcançando a garrafa tomei um bom trago de vinho branco e satisfiz momentaneamente minha sede.

Passado um tempo eu tinha todos os efeitos da embriaguez ainda que não soubesse.

Depois de experimentar tonturas e passar muito mal neste instante, tombei ao solo e fiquei adormecido.

Quando minha mamãe regressou para casa depois de fazer recados me encontrou no solo e levou um tremendo susto, até que eu fui acordando e contei o que havia comido e bebido. Esse dia não tive vontade de comer ao meio dia e até a tarde estive acamado, quando tudo deixou de dar voltas e sumiu o mal do corpo.

Naquele dia aprendi a ser precavido e a não aventurar-me a comer ou beber nada que não viesse diretamente das mãos de meus mais velhos.

A cadeira vazia

A

Sílvia C.S.P. Martinson

Um amigo me disse que é histórico que os reis da antiguidade se sentavam em uma cadeira, semi aberta em seu assento, para ali fazer suas necessidades fisiológicas ao mesmo tempo em que recebiam seus convidados e embaixadores para conversar.

Estranho, prepotente e imagino estranhamente desagradável aos visitantes o cheiro daquele ambiente.

E me detive, não sei por que, a pensar em tal assunto.

Às vezes um fato nos leva a pensar ou recordar coisas que há muito tempo já se passaram.
Estranho...

Ao pensar nisto recordei-me de uma história que há muito tempo me foi contada.
Dentro do que recordo, agora, passarei a narrar para vós outros...

Ele, tampouco importa seu nome, gostava de viajar e das mulheres também. As teve e muitas por um bom tempo (as mulheres).

Todavia, até então, não havia se prendido com amor a nenhuma delas.

Todas simplesmente satisfaziam seus instintos e enalteciam sua libido.

De nenhuma havia se apaixonado ou deixado de satisfazer seu espírito aventureiro, ou seja, viajar pelo mundo a conhecer novos lugares, apreciar novas paisagens e culturas.

Eis que um dia ao retornar à sua casa, caminhando por uma rua, onde se encontravam muitos turistas em visita, ha viu. Algo inesperado aconteceu. Seus olhares se cruzaram e um magnetismo inexplicável os atraiu.

Ambos pararam em sua caminhada e momentaneamente se esqueceram do que estavam propostos a fazer.

Olharam-se, sorriram um para o outro – como se já se conhecessem há milênios – e cumprimentaram-se, o que deu vaza a que entabulassem uma conversa.

Notara, pelos assuntos que entabularam que tinham muitas ideias e pareceres em comum.
Este encontro, pela vontade de ambos, ensejou novos que foram se sucedendo ao longo do tempo.

Foram viver juntos assim o decidiram.

Intensamente ela o amou.

Criou, ela, um ambiente seguro e agradável onde, ele gozava de toda sua liberdade. Não havia queixas entre os dois.

Foram criativos na convivência do dia-a-dia e também no amor.

Um dia ela foi a uma loja de móveis usados que lhe chamara a atenção e ali comprou uma cadeira de madeira. Esta era velha, porém bem conservada e especialmente cômoda.

Levou-a para casa e a instalou na sala de estar.
Quando ele chegou da rua ela lhe apresentou a compra dizendo que ali, quando ele não estivesse, o esperaria sempre com alegria e na esperança de que chegasse bem, fosse em que tempo fosse.

A vontade de viajar e correr o mundo voltou insistentemente aos pensamentos dele.

Enfim teve coragem de dizer a ela e de executar os seus planos que era viajar sozinho.

Quando soube de tudo ao ouvi-lo, ela simplesmente baixou os olhos e tristemente sorriu e lhe disse que na cadeira que estava ali o esperaria como sempre.

Os anos passaram, ele não tinha o hábito de escrever ou mandar notícias de qualquer forma.

Um dia, já velho, cansou. Sentiu a falta dela, de seu lar, de seu amor, de sua vida anterior. Resolveu voltar.

Chegou à sua cidade e para sua casa se dirigiu, contente e feliz por ali se encontrar.

Entrou na casa e encontrou tudo como havia deixado, porém com um detalhe, estava o ambiente coberto de poeira que, se notava, ali se encontrava depositada há muito tempo.
A cadeira estava em seu lugar como se estivesse à sua espera.

No silêncio que se fazia ali, somente ela o esperava, todavia agora, totalmente vazia.

Lembrei-me da história da cadeira dos reis e pensei que às vezes as visitas ou os embaixadores nunca chegam e os monarcas e sua soberba ficam sós, abandonados e esquecidos.

A mentira institucionalizada

A

Pedro Rivera Jaro

Traduzido para o português por Sílvia C.S.P. Martinson
 
Li em um artigo no "20MINUTOS" que explica a participação no fórum "Informação e desinformação no Metafuturo" de um Ministro do atual Governo da Espanha, e de vários jornalistas renomados.
 
Eles criticam as mentiras que se espalham sob a forma de embustes nas redes sociais. Outro dos jornalistas coloca o problema mais em meias verdades, pois eles induzem a falsas crenças.
 
Joaquín Manso acredita que estamos vivendo um período em que a mentira se institucionalizou, ao contrário do que aconteceu em períodos anteriores, já que agora a mentira é usada como ferramenta e com ostentação.
 
Finalmente, Ignacio Escolar acredita que no futuro o uso de mentiras será corrigido, embora ele tenha compartilhado que mentiras agora são mais difíceis de detectar e combater, porque somos uma sociedade sem anticorpos para mentiras.
 
Depois de ouvir todas essas opiniões, eu me pergunto: Como nossa sociedade pode ficar longe das mentiras, se nossos principais líderes, sem querer detalhar nomes e sobrenomes (embora alguns muito conhecidos e importantes venham à mente), prometem em suas campanhas políticas uma série de coisas que farão, e outra série de coisas que nunca farão se alcançarem o poder, mas quando o alcançam, fazem o oposto do que prometeram?
 
Este é um exemplo desastroso de indignidade e falta de escrúpulos, que as pessoas comuns (você e eu) aprendemos a tomar como certo, assim como aconteceu nos anos de chumbo, quando chegamos a ver como normais os assassinatos terroristas perpetrados pelos assassinos da ETA, pelo simples fato de que eles os cometeram como uma questão natural.
 
Até que surgiu um gatilho que fez com que toda a Espanha saísse às ruas para protestar contra a ETA, e foi quando o assassinato de Miguel Angel Blanco provocou o cansaço de todos os espanhóis pela paz, ordem e justiça. Agora pergunto a todos os espanhóis comuns, aqueles de nós que nos dedicamos a levar uma vida digna e a ensinar a nossos filhos todos os princípios que nossos pais nos transmitiram, quando é que vamos tomar as ruas novamente para exigir o fim da descarada sem-vergonhice daqueles que não têm respeito pela verdade e só chegam ao poder para tirar proveito das pessoas trabalhadoras e honestas que compõem a maioria de nossos cidadãos?

Bons tempos

B

Silvia C.S.P. Martinson


Não vivo a relembrar o passado como se fosse o melhor tempo de minha existência.
Mas às vezes algumas lembranças voltam à mente e me fazem sorrir ao recordar.
Penso que vivemos agora uma nova e maravilhosa vida em relação a conforto e tecnologia nunca imaginada por nossos pais, especialmente para as mulheres de então.
Infelizmente em face de tantos outros fatores uma grande maioria das pessoas, no mundo, passa fome e não têm nem suas necessidades básicas, como seres humanos, atendidas e supridas.

Mas, abstraindo-me de tudo isto vou narrar um pequeno fato que ficou marcado em minha memória e que faz juz ao título desta narrativa.
Éramos crianças.

Minha mãe trabalhava em casa muitíssimo. Era modista conhecida e reconhecida por seu trabalho impecável. Tinha excelente clientela.
Nossa casa era grande e confortável para a época e à classe social a qual pertencíamos, graças ao trabalho de meus pais. Não éramos ricos, porém não nos faltava comida à mesa, roupas e calçados modestos sempre limpos e principalmente acesso à educação e ao estudo.
Deixando as divagações de lado vou, enfim contar o que se passou.

Minha mãe trabalhava em suas costuras e nós estávamos no pátio a brincar. Era verão.

Naquela época não se tinha o hábito de trancar as portas da casa que davam para a rua. As pessoas eram respeitosas.

Brincávamos distraídas por quase toda manhã e quando voltamos para dentro de casa para almoçar minha mãe mandou que lavássemos as mãos para comer.

A sala de estar da casa era contígua a de jantar e a cozinha e nela havia duas poltronas e um sofá grande e confortável. Assim que nos sentamos para comer olhamos, não sei por que, para a sala de estar.

E para surpresa nossa havia uma pessoa – de onde podíamos divisar – simplesmente deitada no grande sofá da sala de estar. Era um homem.

Aos gritos chamamos nossa mãe que acorreu pressurosa para ver o que estava acontecendo, quando também se deparou com aquele estranho em nossa casa.

Ela então se aproximou do sofá e viu que a criatura dormia e também cheirava a aguardente. Ela era valente Sacudiu o homem com cuidado e o acordou lhe perguntando o que fazia ali.

Ele balbuciou, semiembriagado, que estava cansado, com fome e que a porta da casa estava aberta e por isso havia entrado. Disse que estava desempregado e com muita fome.
Minha mãe lhe disse que não poderia entrar nas casas assim.

Nós crianças estávamos com medo, porém mamãe além de valente era uma mulher caridosa e se apiedou do pobre miserável. Disse que lhe daria comida. E assim o fez.

Preparou um bom prato de feijão com arroz, carne e uma salada que serviu à parte. Mandou-o sentar a mesa e o serviu. Lembro bem...

O pobre homem esfaimado comeu avidamente e após foi sentar-se no sofá novamente. Mamãe então com toda paciência e por que não dizer prudência, lhe falou que ali não poderia permanecer haja vista que seu marido estava por retornar do serviço e certamente não gostaria dessa situação.

Ele compreendeu, se levantou e ajudado por minha mãe, pois que se encontrava ainda trôpego pela bebida, foi conduzido até a rua.
Seguiu seu caminho. Nunca mais o vimos.
Após o que a porta que dava para o jardim e conduzia à rua foi fechada naquele dia com a chave.

Desde então se criou o hábito de manter a porta fechada sempre.

Bons tempos aqueles em que tínhamos paz, não havia trancas tampouco telefones para chamar a polícia. No entanto as pessoas não eram agressivas e a maldade não estava tão disseminada, pelo menos na minha cidade.
Bons tempos aqueles...

O dereito de ser diferente

O

Pedro Rivera Jaro

Traduzido para o português por Sílvia C.S.P. Martinson
 
Ontem eu li um artigo de Álvaro J. San Juan, sobre um livro que ele escreveu intitulado "Grandes maricas de la historia", e ele revelou algo que eu não sabia. Ele se declara homossexual e também fala das grandes figuras da ciência, das artes, da literatura e da história, e explica a condição homossexual desses homens do passado, que eu desconhecia, exceto no caso de alguns deles, por exemplo, Alexandre o Grande. Eu não sabia que Michelangelo Buonarotti, Leonardo da Vinci, William Shakespeare, Isaac Newton, Hans Christian Andersen, Botticelli, Miguel de Cervantes, George Washington, Tchaikovsky, eram homossexuais.
 
Eles tinham que disfarçar sua homossexualidade, porque as sociedades onde viviam não toleravam diferentes, e porque para a intelectualidade cristã era "normal" ser heterossexual.
 
Ele diz que talvez hajam crianças ou jovens que um dia lerão seu livro e verão que não estão sozinhos. Se ele, quando era apenas uma criança, soubesse de que todos esses grandes homens eram como ele era, e ainda é, isto é, homossexuais, ele se sentiria acompanhado, muito melhor do que como  se sentia.
 
Vou falar-lhes de uma experiência que tive quando tinha trinta anos. Foi por volta de 79, talvez 80, em um bairro de Salamanca chamado Tejares. Tínhamos acabado de pesar um caminhão Pegaso de quatro eixos na ponte-báscula pública, que tínhamos carregado com mercadorias destinadas a uma fábrica na periferia de Madri. Eram cerca de onze horas da noite e entramos para tomar algumas cervejas no Bar Esteban, antes de voltarmos para casa para jantar. Quando entramos, notei que três rapazes de cerca de 20 anos estavam assediando e insultando outro rapaz mais ou menos da mesma idade. Interessei-me pelo assunto e perguntei-lhes o que estava acontecendo. Os assediadores me disseram que estavam se metendo com ele porque ele era um maricas e o chamavam de Marijose, embora seu nome fosse José. 
 
Eu então intervim e lhes disse que eles não tinham direito, porque isso não era motivo para maltratar o jovem. Então um desses três assediadores gritou comigo que eu provavelmente era outro bicha também, e por isso eu o estava defendendo.
 
O que aconteceu depois não posso dizer aqui, só posso dizer que Esteban, que era o dono do bar, interveio e me implorou para parar a luta.
 
Eu o fiz e ele, por sua vez, jogou os três assediadores para fora do bar. O cara gay me agradeceu com muito sentimento, e me deu um abraço de agradecimento antes de sair para casa.
 
Aqueles eram os dias em que as mudanças relacionadas às liberdades começaram a ser notadas em todas as áreas da Espanha e, felizmente, hoje estão enraizadas em nossa sociedade, mas o mundo é muito grande e tem muitas partes onde aqueles que são diferentes ainda estão subjugados.
 
Há uma grande revolução em andamento no Irã em prol das liberdades das mulheres.  No Qatar, onde foi a Copa do Mundo, os homossexuais ainda estão sendo executados por serem considerados mentalmente doentes.
 
Que passa a nós  seres humanos que não somos capazes de respeitar ao outro só porque é diferente de nós? 
 
Todos têm o direito de ser diferentes, isso sim, respeitando por sua vez aos demais.
Viver e dexar viver é um lema que tenho praticado durante toda minha vida e que faz parte de meus princípios básicos.

O tumulo

O

Silvia C.S.P. Martinson

Fui visitar aquele túmulo quando estive em Gaurama antiga província de Erechim no estado do Rio Grande do Sul-Brasil.
 
Era simples, porém bem conservado. Estava situado bem no início do cemitério e se compunha de um cercado de ferro torneado e uma cruz aonde estavam escritos em uma placa de metal os nomes das pessoas ali enterradas.
 
Não havia lápide o tumulo, era de terra que todavia estava coberta por flores do campo de várias cores e uma roseira com rosas vermelhas. Ali havia paz e solidão ao mesmo tempo.
 
A impressão que dava o local é que ali há muito tempo não chegava ninguém. Então naquele momento voltou-me à memória as histórias que eu havia ouvido tantas vezes quando era criança.
 
Ali estavam, enterrados, um casal. Ouvira-lhes contar, de outrem, sua história.
Ele era, segundo me disseram, russo. Era engenheiro agrícola. Penso que por seu sobrenome tratava-se de um judeu, pois que este nome não se parecia ao idioma russo.
Chamava-se Carlos, Carlos Martinson.
 
Trabalhava no palácio do Czar como engenheiro chefe, encarregado de administrar os jardins e plantações do mesmo. Foi-me contado que este Czar era louco e que em pleno inverno, onde tudo se quedava coberto de gelo, ele, exigia que os jardins estivessem cobertos de flores quando ali passasse de carruagem. Seu nome Nicolau II.
 
Carlos devido à sua habilidade e conhecimento agrícola criava roseiras em estufas e tinha então, para satisfazer àquele déspota, rosas que eram colocadas nos canteiros aguardando a passagem do todo poderoso Czar e que ao fim desta, eram retiradas já mortas e ressequidas pelo frio.
 
Carlos era casado. Sua esposa era procedente da Lituania, filha de uma família de origem da nobreza e cujo nome era Von Rohnes ou Rhouness. Seu nome, Cristina. Nesta família, como em toda sua descendência, a filha primogênita leva o nome de Cristina, seja como primeiro ou segundo apelido.
 
Ela era enfermeira alto padrão, ou seja, especialmente qualificada para fazer parte, inclusive, de cirurgias. Era uma mulher muito culta, habilidosa e elegante. Sabia inclusive fazer perfumes.
 
Bem, continuemos com a história dos dois.
 
Conheceram-se, em algum ponto da Europa, não sabemos aonde. Casaram-se e foram morar em São Petersburgo, localizada esta cidade no mar Báltico, um porto que foi por dois séculos a capital imperial da Russia e onde Carlos exercia suas funções no palácio do Czar.
 
De sua união resultaram 10 filhos.
 
O povo estava faminto e descontente com o Czar por sua gestão desastrosa na condução da vida de seu povo, que se encontrava na miséria enquanto ele, sua família e seus súditos mais chegados viviam no maior luxo e opulência.
A revolução comunista e o descontentamento geral se fazia já sentir pelas ruas da cidade.
 
Carlos tinha um irmão que era comunista. Este lhe alertou do que iria acontecer à família real e a todos que lhe estivessem ao derredor, inclusive serviçais. Todos seriam mortos, presos e fuzilados de preferência a fim de que o novo sistema governamental se implantasse sem maiores resistências.
 
Ante tal conhecimento Carlos habilmente deixou o palácio com sua família. Atravessou a Europa e após algum tempo embarcou em um navio rumo às Américas. Seu irmão fez o mesmo, porém por outro caminho. Atravessou a Sibéria a pé e foi parar no Canadá onde se estabeleceu.
 
Carlos chegou a América do Sul, mais precisamente ao Brasil, onde primeiramente se estabeleceu na cidade de Campinas onde foi trabalhar nas plantações.
 
Em Campinas ele e sua mulher tiveram mais duas filhas, as únicas brasileiras. Uma chamava-se Natalia, a mais velha, a outra mais nova, Maria.
 
Todavia, não ficaram muito tempo ali. Ele queria ter seu próprio espaço, ser dono de sua vida e de sua propriedade, ou seja, deixar de ser empregado.
 
E assim, de acordo com Cristina, sua mulher, compraram terras no sul do país, mais precisamente em um lugarejo chamado a época de Gaurama nome que até hoje detém.
 
No entanto, para chegar ali somente se o fazia em lombo de burros e carretas que eram conduzidas com as famílias de imigrantes até àquelas terras inóspitas. Existiam nas terras, leões baios, macacos e serpentes de todos os tipos.
 
Construíram sua casa que adornaram com os objetos que haviam trazido da Russia, tais como aparelhos para fazer os perfumes que Cristina tão bem os sabia elaborar juntamente com as filhas mais velhas e também um candelabro de 7 velas e um samovar para a feitura do chá.
 
Os habitantes daquela região, tão poucos, eram mais simples e de pouca educação e cultura e por isso olhavam esta família com certo desdém e ao mesmo tempo com disfarçada inveja.
 
As filhas menores foram batizadas na religião católica ortodoxa.
 
As árvores neste lugar eram tão velhas e grandes que os doze filhos juntos não conseguiam abraçar seus troncos.
 
A rigidez do clima, dos costumes, das dificuldades inerentes ao lugar, fizeram com que uma das filhas morresse quando ocorreu a tão famosa gripe espanhola, que dizimou grandes populações e tirou do convívio de muitas famílias seus seres queridos.
Infelizmente para os filhos os pais Carlos e Cristina viveram pouco ali.
 
Ele morreu em decorrência da queda de um cavalo sobre si mesmo quando atravessava um rio.
 
Ela algum tempo depois faleceu em virtude de uma pneumonia mal curada em um lugar onde nem médico ou remédios havia.
 
Os filhos mais velhos se dispersaram em busca de novas terras e oportunidades. Restou ali, somente, um irmão casado que criou a filha mais nova Maria e que até muitos anos atrás, ela também já casada e com netos nesta cidade ainda vivia. Hoje não se tem mais notícias deles.
 
Já Natalia foi levada para ser criada por outra irmã que, também casada, conduziu-a a sua casa e juntamente com seu marido ali a teve e pouca educação lhe proporcionou, tendo-a mais como uma empregada doméstica.
 
Todavia Natalia apesar de todas as dificuldades e ficando órfã aos quatro anos, cresceu e aprendeu uma profissão e como praticamente autodidata possuiu toda sua vida grande amor pelos livros, sendo uma leitora voraz e também amante da boa música que, quando podia, ia assistir aos concertos que se davam aos domingos na cidade, onde depois de casada, foi morar.
 
Natalia foi minha mãe adorada.
 
Carlos e Cristina foram os avós que infelizmente não conheci e de que a cujo tumulo prestei minhas homenagens póstumas.

Chiquinha

C

Silvia C.S.P. Martinson

Hoje estão brancos. Brancos e soltos ao vento, tão lindos, como a neve que cai.
 
Já foram negros há muito tempo atrás. Seus cabelos são a testemunha das várias experiências vividas.
 
Agora caminho ao seu lado, pela mão me sujeita. Nós dois de tanto tempo cúmplices, pelas ruas, lentamente andamos. Eu, sempre ao seu lado.
 
Sou sua e como não ser?
 
Sim, sou sua fiel companheira.
 
O tempo urge para nós dois.
 
A mim me pesa mais ainda. Tenho certeza que em breve partirei.
 
Ele me acaricia, fala comigo e me afaga e me mima.
 
Como me sinto feliz nestas horas de convívio mais próximo.
 
Caminhando lado a lado, ele vai pelas ruas me orientando.
 
Somos velhos e quando ninguém nos vê conta-me em voz baixa o que se passou, o que se passa em seu coração.
 
Conta-me de suas alegrias, de tristezas e de esperanças naufragadas.
 
E lhe sinto, ainda, a alma a palpitar quando de seus amores e desejos se põe a narrar.
 
¡Que maravilhosa intimidade a nossa!
 
Todo meu corpo vibra ao pressenti-lo.
Como já disse antes, o tempo urge.
 
Para mim é mais rápido.
 
Dizem que é sete por cada ano do homem. Não sei.
 
Tenho que providenciar a despedida.
 
Não quero magoá-lo nem fazê-lo sofrer.
Não merece, haja vista todo carinho que me tem e pelos sacrifícios que fez por mim.
Já sei... Como todos e todas semelhantes a mim fazem eu também o farei quando chegar a hora.
 
Sem que perceba, quando abrir a porta sairei correndo pelas ruas da cidade em busca do campo, correrei e me esconderei.
 
E lá ficarei quietinha, escondida, até ela chegar. Como sempre chega a todos nós.
Estou velha. Meu pelo cai. Meus olhos já não enxergam bem. Não consigo mais defendê-lo.
 
Meu latido já quase não se ouve.
 
Não sabes ainda?
 
Eu sou Chiquinha, seu cão.
 
Estou morrendo.

Decida seu futuro

D

Pedro Rivera Jaro

Traduzido ao português por Silvia C.S.P. Martinson

Qualquer pessoa sabe que não tem nenhuma chance de recuperar sua juventude. Muitos de nós sabemos que às vezes, quando somos jovens, intoxicamos nossas cabeças com ilusões e que estas ilusões, na maioria das vezes, nunca são realizadas.

Os pais de cada pessoa, com suas melhores intenções, orientam você a se preparar para o que eles pensam que lhe trará o melhor futuro possível, e mesmo que você tenha outras preferências, eles tentam fazer com que você os esqueça para que você se concentre no que eles pensam que será melhor para você. Quando eu era criança eu adorava jogar futebol, mas meu pai sempre me dizia para parar de jogar e estudar, esse seria o caminho para que eu me tornasse um homem útil no futuro.

Eu também queria estudar música quando tinha 9 anos de idade. Quando fiz o exame de admissão ao bacharelado em junho de 1959 e passei, meu pai me deu um violão com sua caixa, como prêmio. Naquele verão, nas montanhas, na aldeia de meus avós maternos, Las Rozas de Puerto Real, onde meu pai tinha construído uma pequena casa, o padre da aldeia, D. Antonio, que era uma excelente pessoa, me ensinou a tocá-lo usando o método dos números marcados nas linhas do pentagrama. Naquele verão aprendi a tocar canções como "Yo te daré", "Yo vendo unos ojos negros", "Clavelitos", e outras que eu estava muito feliz em praticar, porque eu tinha um grande amor pela música.

Quando retornamos a Madri no final do verão e retomei meus estudos no primeiro ano do ensino médio, meu professor, que era o diretor da escola, ao saber que eu estava aprendendo a tocar violão, disse a meu pai que: ou eu estudaria ou tocaria violão. Ele nem mesmo sabia distinguir entre guitarra e um violão, que grande professor que não sabia como ver que a música poderia ser uma atividade complementar às disciplinas do bacharelado.

Meu pai, que segurava o diretor Dom Francisco em um altar como se fosse um santo, levou a caixa do violão com ele dentro, e a colocou em cima do guarda-roupa em seu quarto e me disse: "Até o final do curso, não volte a tocá-lo". E eu, retendo minhas lágrimas, não ousava responder a meu pai, mas em meu eu interior e cheio de tristeza pensei: "Nunca mais vou tocá-lo". E assim foi.

Agora eu escrevo muitos poemas. Se eu tivesse me dedicado à música, provavelmente teria sido um compositor, mas isso é algo que hoje, aos 72 anos de idade, não sei se teria acontecido, pois não me foi permitido seguir esse caminho.

E o mesmo aconteceu com outras tentativas posteriores, como minha intenção de estudar medicina veterinária, que minha mãe não gostou, e me desencorajou de meu desejo porque achava que não era uma profissão muito brilhante para seu filho.

De qualquer forma, o que eu quero lhe dizer é que você não deve permitir que ninguém o desvie de seus passatempos para focalizar suas vidas. É muito importante, muito importante, dedicar-se ao que pode fazer você feliz. A vida pode nos parecer longa, mas na realidade, ela se torna muito curta e leve se a gastamos fazendo o que achamos mais satisfatório.

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